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Jornalismo

Desenho como forma de expressão pessoal

A meninada percorreu caminho artístico para desenvolver uma produção com a cara dela

PorFernanda Salla

21/08/2015

O que é desenhar? Assim como para diversos adultos, para os alunos do 5º ano da EM Valéria Junqueira Paduan, localizada na área rural de Santa Rita do Sapucaí, a 386 quilômetros de Belo Horizonte, esse ato consistia em fazer, com um lápis no papel, uma figura conhecida, como um objeto, uma pessoa ou uma paisagem. Por essa razão, quando eram solicitados a produzir um desenho, muitos respondiam: "Eu não sei". Diante dessa postura, a professora de Arte Maria da Paz Melo desenvolveu um trabalho para mostrar as diversas possibilidades dessa modalidade artística e resgatá-la como forma de expressão.

"A concepção de desenho normalmente desenvolvido nas escolas é herança de um modelo neoclássico - em que ele é visto como cópia e duplicação do real. É preciso explorar o potencial dele como linguagem expressiva, despertando a sensibilidade dos estudantes por meio da conexão entre o corpo, os instrumentos e as superfícies, para que entendam que o desenho nasce das relações entre a observação do mundo, a memória e a imaginação", diz a artista plástica Edith Derdyk, autora do livro Formas de Pensar o Desenho (192 págs., Ed. Zouk, tel. 51/3024-7554, 38,50 reais), usado como fonte de consulta por Maria da Paz. Desse modo, gravetos, terra, folhas e tintas, entre outros materiais, se tornaram meios de comunicação da garotada.

Para trabalhar a questão, ela propôs nove situações didáticas envolvendo o desenho (leia sobre algumas delas nos quadros que acompanham esta reportagem), realizadas dentro e fora do ateliê da escola - espaço concebido pela docente com produções dos alunos e referências coladas nas paredes. Para cada uma, a dinâmica consistia em explicar o que seria feito e apresentar imagens de obras de artistas contemporâneos (retiradas da internet, de vídeos ou livros de Arte). Em seguida, os estudantes partiam para a produção. 

Como primeira atividade, Maria da Paz desconstruiu a ideia dos liga-pontos, comum em revistas infantis, em que era preciso seguir uma ordem numérica para formar figuras. Ela propôs que a criançada fizesse os próprios pontos - com giz de cera ou pastel sobre papel - e, em seguida, unisse-os com traços da maneira que quisesse, criando formas originais. Pinturas de Joan Miró foram exibidas à turma para que servissem de inspiração. "Cada trabalho ficou de um jeito, com a cara do autor", diz a docente.

 

Atividade Liga-pontos. Com giz ou pastel sobre o papel, eram criados pontos variados, ligados, em seguida, com linhas 
 

Objetivo Entender o ponto e a linha como a base do desenho bi ou tridimensional 
 

Referência Joan Miró (1893-1983) 
 

Materiais Papéis diversos, giz de cera ou pastel aquarelado e anilina

Rosa Iavelberg, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza a importância das referências para a criação. "Os artistas se estudam e emprestam estéticas de outros para enriquecer suas poéticas. Pablo Picasso (1881-1973) fez isso com Diego Velázquez (1599-1660), por exemplo. Esse é um procedimento da Arte." Não se trata de copiar, mas de construir um repertório gráfico.

O desenho de observação, presente nas ciências, a exemplo da Geografia e da Biologia, foi explorado por meio da representação de objetos e elementos da natureza, como insetos e conchas. Em uma das situações, os alunos reproduziram com carvão ou caneta partes de árvores do terreno da escola. Muitos subiram nelas para observar de perto o que queriam representar.

Na proposta seguinte, as crianças construíram esculturas encaixando pedaços de papelão e plástico rígido, cortados em formas geométricas, e foram instigadas a transpor essa figura tridimensional para a forma bidimensional do papel. Os artistas apresentados a elas foram Franz Weissmann, Lygia Clark e Amilcar de Castro. "Nesse desenho, as formas não foram predeterminadas, mas fruto da criação dos alunos. Isso possibilita o aprofundamento da percepção estética deles, por meio de duas linguagens", diz Monique Deheinzelin, doutora em Psicologia e Educação pela USP. O mesmo conceito foi trabalhado em uma atividade de colagem com recortes de revista, em que, após fazer as obras, eles as desenharam.

 

Atividade Escultura. Fazer obras encaixando peças geométricas. Depois, desenhá-las de diferentes ângulos 
 

Objetivo Transpor o objeto do plano tridimensional para o bidimensional 
 

Referências Franz Weissmann (1911-2005), Lygia Clark (1920-1988) e Amilcar de Castro (1920-2002) 
 

Materiais Papelão, caneta e papel

Com um acetato preso a um pedaço de vidro, foi a vez de as crianças traçarem, com uma caneta para plástico, os contornos de objetos, imagens de arte ou do rosto de um colega, posicionados atrás da transparência. Maria da Paz fazia intervenções para ampliar o olhar da garotada e informá-la sobre padrões de proporção, com colocações como: "Veja o modo como você desenhou o olho do seu colega e como ele é de fato. Está parecido? Quer mudar algo? Normalmente, há uma distância do tamanho de um olho entre um e outro". Segundo Rosa, esse tipo de ação promove o desenvolvimento da percepção dos alunos, que transformam as informações recebidas e a experiência vivida em conhecimento.

 

Atividade Retrato no acetato. Desenhar o contorno do rosto de um colega por detrás de um acetato fixo num vidro 
 

Objetivo Trabalhar a observação e as primeiras noções de proporção do rosto 
 

Referência Livro 500 Self-Portraits, de Julian Bell (sem tradução para o português) 
 

Materiais Acetato e caneta para plástico

O estilo environmental art (arte ambiental) também foi estudado pela sala, que analisou fotografias de obras de artistas, como o italiano Alfio Bonanno, para, depois, buscar materiais orgânicos no quintal da instituição - como flores, pedras e sementes - e fazer intervenções nesse local. "Antes, conversamos sobre a importância da preservação do meio ambiente e sobre o conceito de arte efêmera, que existe apenas por um tempo", afirma Maria da Paz. "Essa prática amplia a relação com a natureza, fazendo com que se criem vínculos e levando a uma outra compreensão do meio", afirma Monique.

Ainda na área externa, a garotada fez instalações com gravetos - repertoriados por obras de Frans Krajcberg - e, com pedacinhos de madeira ou pincéis e anilina, marcou as sombras projetadas nos papéis posicionados embaixo da obra. A autoria estava no gesto da criança e na interação dela com os materiais, o que resultava em linhas de diferentes espessuras, intensidades e cores. Com a proposta, todos puderam desenhar, independentemente da habilidade que tinham.

 

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Atividade Desenho das sombras. Após a montagem de esculturas com galhos, as sombras projetadas num papel colocado embaixo da obra eram pintadas com anilina, usando gravetos e pincéis 
 

Objetivo Experimentar os diferentes resultados de traços alcançados 
 

Referência Frans Krajcberg 
 

Materiais Galhos, anilina, papel e pincel

Por fim, o corpo de cada aluno foi usado como suporte artístico. Depois de apreciarem imagens de tatuagens e de pintura corporal de povos nativos africanos e indígenas brasileiros, os estudantes desenharam no próprio rosto com pastel aquarelado, que é lavável. "Utilizei as referências que vimos em sala de aula e lembrei de filmes de que gosto, como os de vampiro e de terror, para fazer minha pintura", afirma Alice Aparecida Silva, 10 anos.

 

 

Atividade Pintura no rosto 
 

Objetivo Mostrar o corpo como suporte do desenho e forma de expressão, utilizado desde as primeiras civilizações 
 

Referências Povos nativos africanos, como as tribos do Vale do Rio Omo, e indígenas brasileiros, além de tatuagens e imagens de body modification 
 

Material Pastel aquarelado

Rosa ressalta o caráter autoral dos trabalhos realizados pelas crianças, mesmo guiadas por propostas comuns a toda a turma, estruturadas pela professora, mas diz que é válido dar oportunidade para que elas mesmas decidam o que e como fazer, reservando momentos de criação livre.

A trajetória percorrida pelos estudantes da educadora Maria da Paz fez com que eles rompessem com os estereótipos e expandissem o conceito que tinham de desenho. "A professora via arte onde a gente não conseguia ver, mas agora consegue", conta o aluno Pedro Henrique de Barros Aguiar, 11 anos, evidenciando em sua fala que o aprendizado de fato foi alcançado.

A artista plástica Maria da Paz compartilhou com os alunos seu percurso criador
 

Fotos: Fernanda Salla e Manuela Novais | Ilustração: Renata Borges

Reportagem: Fernanda Salla em Santa Rita do Sapucaí (MG)

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