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Jornalismo

Aspectos socioemocionais não podem ser descuidados durante as ações de enfrentamento das defasagens

Recompor as aprendizagens é importante, mas é necessário ter calma para acolher e apoiar os estudantes dos Anos Finais

PorIvonete Dezinho

03/05/2022

Foto: Getty Images

Dois meses após o início do ano letivo, escrevo este texto rodeada de papéis espalhados sobre a mesa: planilhas, tabelas, gráficos, relatórios, resultados da avaliação diagnóstica e muitas dúvidas. Como planejar os próximos passos?

O primeiro passo é retomar suas anotações. No meu caso, vi como as dinâmicas de acolhimento e diagnóstico me permitiram conhecer melhor os alunos, coletar informações pessoais, conhecer suas preferências, sonhos e expectativas. Com isso em mãos, tracei um perfil de cada turma.

Ao tabular as informações das avaliações iniciais e levantar os conteúdos que meus alunos do 8º e 9º ano dominavam e suas respectivas dificuldades, confesso que fiquei bastante preocupada. Os dados obtidos só evidenciaram como o ensino remoto aumentou as dificuldades em Matemática.

Questionei-me se seria possível trabalhar as habilidades determinadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para cada ano ou se deveria começar por aquelas que estavam previstas para os anos que os alunos cursaram de forma não presencial. A minha impressão é que as noções básicas de álgebra, geometria, estatística e probabilidade, os conjuntos numéricos e as operações precisavam ser retomadas.

Foi nesse momento de reflexão que lembrei da semana pedagógica que aconteceu na última quinzena de fevereiro em minha escola, com o tema “Seu olhar melhora o meu”. Na época, refletimos sobre a pergunta: “Qual olhar precisamos ter para nossos estudantes no ano 2022?”. À qual a maioria respondeu: “Olhar de acolhimento, escuta, sensibilidade, respeito, empatia, paciência”. 

O espaço do socioemocional
Sempre tivemos um olhar especial para os alunos. Neste ano, em particular, ele deve contemplar não apenas o aspecto cognitivo da turma, mas também aspectos emocionais.

Por isso, devemos pisar no freio, respirar e dar espaço para saber como nossos alunos estão depois de um longo período de pandemia, no qual muitos perderam entes queridos ou não tiveram acesso à internet para assistir às aulas. O acolhimento, a escuta, o respeito, a empatia e a paciência são necessários para que o processo de ensino aconteça. Assim, aos poucos as habilidades essenciais de cada componente serão desenvolvidas.

Temos uma grande preocupação de dar conta de todos os conteúdos previstos, cumprir ementas curriculares e planejamentos e desenvolver habilidades essenciais. Somos cobrados por isso. No entanto, acredito que este ano o nosso olhar deva ser aquele que transmite acolhimento e respeito às questões emocionais, sem deixar de lado uma atenção cuidadosa para as aprendizagens em defasagem. 

Como promover o acolhimento no retorno ao presencial

O olhar para o emocional deve estar presente desde a Educação Infantil. Entenda as várias dimensões do acolhimento – emocional, pedagógica e de segurança com a saúde – e confira sugestões de atividades para a recepção de crianças e jovens.

Como seu olhar pode ajudar a melhorar o olhar do outro?
Na minha escola discutimos como nosso olhar pode ajudar o do outro, se enfrentarmos os problemas atuais com uma nova perspectiva, coletiva e interdisciplinar. Não significa ignorar as dificuldades, mas garantir que os alunos se expressem de forma oral, escrita e artística. Cabe a nós, professores, planejar ações conjuntas.

Através do nosso olhar enxergamos quais são as dificuldades socioemocionais e cognitivas de nossos estudantes. A partir delas, podemos planejar intervenções e encontrar, em parceria com os demais professores e a gestão escolar, caminhos para recompor as aprendizagens.

Recomposição de aprendizagens

Confira reportagens e cursos que visam auxiliar os educadores na identificação de defasagens e na construção de estratégias para recompor, priorizar e impulsionar habilidades e competências essenciais em todas as etapas de ensino.

Por aqui, sigo nessa perspectiva. Trabalho as habilidades determinadas para cada ano e reviso conteúdos anteriores quando percebo dificuldades dos alunos.

Existe muito significado no ato de recomeçar, pois nunca partimos do zero. A beleza do processo está exatamente na metamorfose, em acreditar que o melhor ainda está por vir. Por isso, não tenha medo de tentar algo novo. O medo é um sentimento muito pequeno diante de todas as possibilidades que podemos proporcionar aos nossos estudantes. Sigamos com mais coragem, mais força e a certeza de que a cada amanhecer teremos uma oportunidade do recomeço.

E você, caro colega, acredita que o seu olhar pode ajudar o do outro? Compartilhe suas experiências nos comentários.

Um abraço e até breve!

Ivonete Dezinho

Ivonete Dezinho é professora há 36 anos, lecionou por 25 anos na rede estadual de Educação de Mato Grosso do Sul, nos Anos Inicias do Ensino Fundamental, e há 19 anos trabalha com Matemática na EMEF Professor Milton Porto, em Naviraí (MS). Em 2014, foi uma das vencedoras do Prêmio Educador Inovador com o projeto “A matemática na minha vida”. Em 2018, recebeu o Prêmio Educador Nota 10 e foi vencedora da premiação popular #EsseProjetoé10 com o projeto “De pai para filho: uma abordagem do ensino da matemática nas profissões”. Em dezembro de 2018, recebeu a medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo pelo Ministério da Educação (MEC). Em 2020, foi vencedora do Prêmio Educador Digital com o trabalho “Boas práticas na educação remota com o projeto 'Da ponta do dedo à ponta do lápis': o ensino da Matemática na modalidade remota”.

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