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Jornalismo

Como trabalhar o letramento na Educação Infantil?

Entenda a importância e os limites dessas práticas, que devem ser trabalhadas de forma lúdica e com intencionalidade pedagógica, e confira exemplos de propostas alinhadas à BNCC

PorVictor Santos

27/04/2022

Foto: Getty Images

Ao longo de todo o mês de abril, a redação da NOVA ESCOLA produziu reportagens especiais com o tema alfabetização, discutindo os desafios e as perspectivas para a atuação dos professores dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. O foco nesses profissionais se deu porque, segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a alfabetização ocorre justamente nessa fase, especificamente no 1º e no 2º ano, com continuidade no 3º ano, privilegiando o sistema ortográfico e os padrões de escrita. Além disso, os esforços para a recomposição de aprendizagens, por conta do período pandêmico, estão mobilizando todos os docentes dessa etapa.

Porém, um ponto que costuma gerar questionamentos é: como se situam os professores da etapa anterior, no caso, a Educação Infantil, em meio a esses processos que envolvem leitura e escrita? “Antes de entrar nesse assunto, é importante compreender no que consiste a aprendizagem inicial da língua escrita”, diz Tatiana Arruda, doutora em Educação e formadora de profissionais da Educação Infantil na Secretaria de Educação do Distrito Federal. 

Tatiana menciona a autora Magda Soares, para quem essa aprendizagem contempla dois processos cognitivos e linguísticos distintos, mas interdependentes: a alfabetização e o letramento. “A alfabetização é a apropriação do sistema de escrita alfabético, com suas convenções e regras. Por exemplo, escrevemos da esquerda para a direita e de cima para baixo e temos um repertório finito de letras, com determinadas combinações possíveis”, explica a especialista, que possui 19 anos de experiência na Educação Básica. “Já o letramento é o processo que envolve a capacidade de uso da escrita e remete às diferentes funções e práticas sociais e individuais ligadas a essa utilização, como ler, interpretar e produzir um texto ou ser capaz de pesquisar e registrar informações.”


Assim, prossegue Tatiana, “sabemos que, segundo as diretrizes curriculares nacionais da Educação Infantil e a BNCC, nós não vamos alfabetizar as crianças nessa fase, mas podemos e devemos inserir práticas de letramento”. De acordo com ela, cabe então à escola oferecer, de forma sistematizada, experiências que oportunizem às crianças mais acesso à cultura escrita. “Isso pode acontecer em diferentes momentos de leitura, compreensão e interpretação de textos, com experiências envolvendo gêneros textuais variados e trazendo o registro escrito para o cotidiano, com o professor como escriba, e também estimulando a escrita espontânea das crianças.” 

Por isso, nesta última reportagem do Especial Alfabetização, conversamos com experientes professoras de escolas públicas em busca de sugestões para a construção de propostas efetivas que abarquem o letramento dos pequenos.

O letramento na Educação Infantil, segundo a BNCC

Apesar de não aparecer de maneira expressa no documento, a Base sinaliza caminhos para o trabalho com o sistema de escrita nessa fase 

A BNCC trouxe uma nova forma de pensar a Educação Infantil (mais detalhes neste conteúdo da NOVA ESCOLA), colocando as crianças no centro do processo de ensino e aprendizagem e estruturando a organização curricular a partir de dois eixos estruturantes para as práticas pedagógicas (interações e brincadeira). A proposta visa nortear habilidades, atitudes e valores que as crianças de 0 a 5 anos devem desenvolver, além de propor seis direitos de aprendizagem (conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se) considerados fundamentais. São esses dois eixos e esses seis direitos que orientam os cinco campos de experiência presentes no currículo (O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; Espaços, tempo, quantidades, relações e transformações). 

Como destaca a formadora Tatiana Arruda, em meio a essas proposições, “a BNCC não assume o letramento de uma forma explícita, mas nós, estudiosos e profissionais da Educação Infantil, entendemos que as crianças já nascem imersas na cultura escrita, daí a importância de trazer o registro escrito para o cotidiano”, explica. “Se pegarmos os direitos de aprendizagem como referência, vemos que eles se constituem em estratégias pedagógicas que podem favorecer esse trabalho com o letramento.” Ela cita como exemplos conviver com diferentes suportes de textos; brincar com parlendas, canções, histórias e palavras; participar da elaboração de textos diversos; explorar a utilização da escrita em diferentes situações; expressar hipóteses por meio da escrita espontânea e conhecer-se em relação às suas ideias sobre a escrita. 

 

Ampliação de repertório e valorização da curiosidade e do interesse da turma 

Professora na rede municipal de São Paulo (SP), especialista em educação para inclusão e cidadania e atual assistente de direção no CEMEI Jardim Ângela, Viviane Machado Sabadin possui experiência em projetos que envolvem letramento, literatura infantil e práticas sociais de leitura e escrita. Ela reforça que o trabalho com o letramento exige uma perspectiva diferente daquele com a alfabetização. 

“Precisamos ter em mente que, na Educação Infantil, o foco é o contato das crianças com práticas diárias de leitura e com as práticas pessoais e sociais envolvendo a escrita no cotidiano”, comenta. “Afinal, elas já estão em contato com tudo isso, como ao memorizarem as letras que formam a senha do celular do pai ou as usadas em algum joguinho. A escola precisa, então, ampliar esse repertório, mostrando que são práticas comuns no dia a dia e iniciando um trabalho de formação de leitores.” Além disso, Viviane chama a atenção para outro elemento importante nessa etapa. “Tudo o que envolve recortar, fazer pinça, pintar e explorar são questões ligadas à coordenação motora e que são fortalecidas agora. Lá na frente, nos Anos Iniciais do Fundamental, elas vão auxiliar no desenvolvimento da escrita.” 

Para pensar na construção das propostas, a profissional recomenda partir do raciocínio de “onde eu quero chegar e o que espero que as crianças atinjam” e analisar as demandas dos pequenos. “As rodas de conversa são fundamentais e trazem muita informação sobre a curiosidade das crianças. Nesses momentos, elas reportam na sala o que acontece em suas vidas, o que têm aprendido, os conflitos que tiveram. Normalmente, a partir daí, surge uma lista de interesses, que são os temas com os quais as professoras vão trabalhar no dia a dia.” 

Viviane conta que foi criado um espaço temático na quadra da escola, onde estão registrados os nomes de várias brincadeiras. “Então, a partir disso, as professoras elaboram coletivamente, em sala, algumas listas com esses nomes que estão na quadra, e as crianças vão construindo hipóteses sobre as palavras, apoiando na escrita da lista. Por exemplo, elas começam a identificar que o ‘b’ da brincadeira da ‘bola de gude’ é o mesmo ‘b’ de Bernardo.”

Com isso, conforme aponta a educadora, atividades que seguem essa proposta de escrita coletiva – com o professor como escriba e as crianças participando desse momento – tornam-se uma ferramenta relevante no processo de letramento. “As turmas produziram, recentemente, uma carta coletiva reunindo as expectativas do grupo para este ano. É interessante observar que, no momento de apoiar o professor na produção dessa carta, algumas crianças de cinco anos, que já têm uma certa trajetória escolar e um auxílio maior da família, demonstram estar em estágios como o pré-silábico ou mesmo silábico”, lembra. Desse modo, conclui Viviane, “vemos que desde pequenas as crianças têm essa curiosidade em [saber] como se escreve isso ou aquilo e vontade de mexer e ter contato com os livros e as palavras. A Educação Infantil permite justamente isto: trazer as práticas de leitura e escrita para a sala, fazendo com que as crianças as entendem como práticas sociais.” 

Avaliação, Leitura e Jogos 

Este combo une três cursos completos, que trabalham com os seguintes temas: como fazer uma avaliação de qualidade; como planejar atividades de leitura e como trabalhar com jogos na Educação Infantil. 

 

Experiências significativas e protagonismo das crianças 

A professora e integrante do time de formadores da NOVA ESCOLA Andréia Cristina Berretta, de Porto Ferreira (SP), também tem vasta experiência com letramento. Ela é graduada em Pedagogia e Letras e especialista em Psicopedagogia e Alfabetização. Atualmente, dá aulas para o 1º ano na EMEF Professora Nadir Zadra Ribaldo e atua também no Núcleo Municipal de Educação Infantil Alto do Serra d’Água, para a chamada Etapa 1, com crianças de quatro anos.

Prestes a completar 20 anos de trabalho na Educação Infantil, a professora sublinha que falar de letramento na Educação Infantil é falar do cotidiano, para as crianças entenderem como a escrita é utilizada, em quais momentos e por meio de quais suportes. “Nós vamos construir experiências significativas para ‘equipar’ essa criança e permitir que ela atinja a alfabetização no Ensino Fundamental. Para isso, vamos trabalhar oralidade e escrita.”

Segundo Andréia, as possibilidades de propostas focadas nesses elementos são muitas. “Tudo envolve colocar a criança como protagonista em brincadeiras e interações. Elas adoram a questão dos nomes, então é possível pensar em brincadeiras trocando os crachás delas com os dos colegas. Dessa perspectiva, dá para explorar o alfabeto móvel, pedindo que montem os seus nomes e enfatizando bastante a questão das iniciais de cada um.”

Esse processo, continua a educadora, é permeado por muita observação e escuta ativa. “A criança faz várias analogias, e vamos construindo perguntas como: ‘Quais [nomes] de vocês têm a mesma inicial? Quais terminam com a mesma letra?’. Eles vão identificando coisas como ‘essa palavra começa com o ‘v’ da Valentina’, evidências valiosas que vão ajudar a traçar e adequar as experiências de aprendizagem seguintes.”

Entre essas experiências, Andréia ressalta o trabalho com textos coletivos, na mesma linha que trouxe a professora Viviane. “O bilhete coletivo para as famílias é uma ação interessante: o professor como escriba e trazendo a criança para a produção desse texto, da qual ela participa por meio da oralidade. É importante usar a letra bastão, mais fácil para a criança identificar e tentar traçar também.”

Atividades de Educação Infantil: Planejamentos alinhados à BNCC

Neste curso, você conhecerá experiências e indicações que ajudam a realizar um planejamento completo e alinhado à BNCC, além de plenamente voltado aos interesses e à perspectiva das crianças que frequentam a Educação Infantil.

 

Por fim, ainda sobre essas iniciativas coletivas, a professora salienta a importância dos livros infantis nessa etapa. “As rodas de leitura são outra ótima estratégia, e o professor precisa se atentar muito ao planejamento. Ele deve pensar antecipadamente em perguntas provocativas como: ‘Que título é esse? O que é essa figura? O que será que vai acontecer?’”, exemplifica.

Ela diz que mesmo as pausas na leitura devem ser planejadas com antecedência, pois servem tanto para verificar se as crianças estão acompanhando a atividade quanto para mediar momentos para cada uma contar o que está entendendo. A professora frisa ainda a importância de trabalhar com diferentes gêneros textuais. “Parlendas e cantigas com rimas e aliterações são muito significativas para a consciência fonológica. Hoje, conseguimos encontrar muitas cantigas no YouTube, e as crianças memorizam bastante esses textos.” 

Exploração da leitura e da escrita com intencionalidade pedagógica 

A professora Maria de Lourdes Mello Martins atua na rede municipal de Santos (SP). Neste ano, ela está com uma turma de 4º ano na Unidade Municipal de Educação Gota de Leite. No entanto, de 2017 a 2021, atuou diretamente na Educação Infantil e tem uma trajetória de décadas que inclui sala de aula, coordenação escolar, formação de professores, especialização em Literatura para crianças e jovens e projetos de leitura e escrita na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Fundamental. 

Com tamanha bagagem, a professora também corrobora o entendimento de suas colegas de profissão, de que o trabalho com letramento nessa etapa está intimamente ligado à curiosidade dos pequenos pelo mundo ao seu redor. “A criança está mergulhada na cultura escrita, então ela pode muito bem experimentar esse objeto do conhecimento como faz com qualquer outro na escola. E esse uso se inicia de forma aleatória mesmo, virando o livro de ponta-cabeça, olhando-o de trás para frente, enfim, eles vão construindo um olhar para esse objeto.”


Nessa proposta de experienciar os livros, Maria de Lourdes indica que, se por um lado “essa ação de ler para as crianças todos os dias proporciona a entrada nesse universo da literatura”, por outro, trata-se de um processo de construção que inclui várias etapas. “Começa na escolha do acervo. Com o tempo, fui aprendendo a escolher livros com figuras das quais as crianças gostam, como Max, o corajoso, que uso muito. No caso das crianças bem pequenas, há algumas características importantes, como um olhar para obras com poucos personagens.” 

Em seguida, continua a educadora, é hora de criar a rotina. “Com crianças muito pequenas, a dica é disponibilizar os livros aos poucos, para os manipularem aleatoriamente, em um espaço com brinquedos também”, sugere. “Depois, consolida-se a rotina das rodas de leitura, conduzindo a narrativa de forma a prender a atenção de todos.” 

A NOVA ESCOLA já foi acompanhar in loco a educadora em uma atividade de roda de leitura, e esta reportagem traz mais alguns detalhes desse processo. Ao final, destaca Maria de Lourdes, é o momento da escolha de outros livros e da exploração pessoal. “Deve-se permitir que as crianças peguem outras obras e as folheiem. É interessante ver as preferências sendo construídas. Outro ponto é estimular que recontem a história, mesmo que informalmente. Elas costumam guardar os títulos dos quais gostam, os seus personagens favoritos. É um universo de letramento imenso.” 

Maria de Lourdes também sublinha o valor das atividades que envolvem escrita coletiva, permeadas por muita intencionalidade pedagógica. “Eu gostava, por exemplo, de escrever a rotina do dia, com entrada e saída, o que vamos fazer, quando vamos ao parque e que horas será o lanche”, comenta. “Mas não adianta apenas criar esses materiais ou escrever listas de nomes e parlendas em cartazes e pendurá-los. É preciso haver intencionalidade para fazer disso uma situação de aprendizagem, seja possibilitando autonomia para que interajam com esses cartazes, pendurando-os na altura deles, por exemplo, ou estimulando as crianças com questões do tipo: ‘Como eu escrevo tal coisa? Qual é a próxima palavra?’”, exemplifica. “O mundo da escrita precisa estar presente na vida das crianças, e a Educação Infantil é um período potente porque não tem a pressão do Ensino Fundamental. Elas podem avançar muito nesse aspecto se tiverem as devidas oportunidades.”

Consultoria pedagógica: Mazé Nóbrega, consultora de Língua Portuguesa e professora de pós-graduação do Instituto Vera Cruz, em São Paulo (SP).

Esta reportagem faz parte do Especial Alfabetização. Confira aqui os demais conteúdos.

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