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Jornalismo

O que é intencionalidade pedagógica na Educação Infantil?

Prática docente deve ser pautada na concepção de criança, nos direitos de aprendizagem e desenvolvimento, e nos momentos que perpassam todo o período e o espaço escolar

PorPaula Sestari

26/04/2022

Crédito: Getty Images

Olá professoras e professores, tudo bem? Na conversa de hoje, resolvi trazer uma reflexão sobre a palavra “Intencionalidade” na ação pedagógica, e como ela se reflete no cotidiano da Educação Infantil. Em linhas gerais, o conceito pode ser resumido no encontro da ação consciente do professor com os interesses e necessidades das crianças. 

Porém, a pergunta que não quer calar para todos os professores é: como podemos tornar esse encontro um casamento perfeito? Infelizmente, não existe uma resposta pronta para esse questionamento, mas é possível percorrer algumas pistas e, a partir delas, consolidar o nosso planejamento de forma a atender os preceitos essenciais da boa prática pedagógica – e tornando-a, de fato, intencional. Antes de me debruçar sobre essas pistas, gostaria de resgatar alguns tópicos importantes que estão na própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 

Intencionalidade, concepção de criança e a BNCC 

Detalhando um pouco mais o ponto da ação consciente do educador, vemos que consiste em algo pensado, organizado e executado de maneira racional pelo professor, que conhece a sua criança, o grupo etário, e a realidade da instituição e da comunidade.

Como organizar e cuidar do espaço escolar

Confira esse NOVA ESCOLA BOX que é inteirinho dedicado à importância pedagógica do espaço escolar – e conta ainda com reflexões sobre planejamento.


Além disso, o professor desenvolve esse trabalho levando em conta uma concepção de criança condizente com os preceitos legais e documentos orientadores como a própria BNCC, que ao abordar essa compreensão sobre os pequenos, fala de um “ser que observa, questiona, levanta hipóteses, conclui, faz julgamentos e assimila valores, e que constrói conhecimentos e se apropria do conhecimento sistematizado por meio da ação e nas interações com o mundo físico e social”. 

Portanto, a intencionalidade de que falamos se situa em meio ao entendimento sobre essa concepção e aos aspectos relacionados ao desenvolvimento infantil – nesse caso, focando na garantia dos direitos das crianças, tanto aqueles que são socialmente estabelecidos, quanto os direitos de aprendizagem propostos pela BNCC. E essa garantia deve ocorrer em todos os momentos; afinal, tudo o que acontece no espaço da Educação Infantil é tido como educativo. 

Sendo assim, a intencionalidade pedagógica requer um olhar apurado para toda a rotina, desde o acolhimento, a forma como o espaço é preparado, a higiene, a alimentação, o repouso, e as brincadeiras, e funciona como um verdadeiro norte para o trabalho, já que torna harmonioso todo esse fluxo entre uma ação e outra –  com a flexibilidade necessária para atender as especificidades do momento de cada criança e de cada grupo. Vale ressaltar que, conforme a própria BNCC também reforça, em todos esses processos é imprescindível a ação sistêmica do docente, que planeja, propõe, observa, analisa e replaneja sua prática pautado em evidências.


Intencionalidade no dia a dia da Educação Infantil
 

Vemos então que a intencionalidade do professor está presente na organização diária de contextos educativos de qualidade, em que a criança tenha a oportunidade de vivenciar o seu protagonismo. Para isso, vale mencionar quatro pontos importantes (lembram que falei de pistas, lá no começo?), que são momentos que não precisam estar demarcados explicitamente no planejamento, mas que são cruciais para que o docente analise constantemente a forma como organiza a jornada com os pequenos.

Momentos optativos 

São momentos em que a criança encontra, no espaço, os recursos que garantem a sua livre escolha, a formação de grupos de interesse, a circulação e os movimentos autônomos. Aqui, o professor intencionalmente disponibiliza esses materiais, organiza cantos inspirados em temas diversos, e faz modificações contínuas nos espaços para ampliar as possibilidades de diálogos, explorações e experimentações.

Momentos conduzidos 

Neles, ocorre a mediação do professor enquanto promotor de situações que aproximam as crianças de conhecimentos construídos socialmente, em áreas como arte e ciência, sempre pautado pela ludicidade e pela diversidade. Ocorre aí também a intenção de criar arranjos e agrupamentos diferenciados, proporcionando que as crianças tenham contato com todos os colegas em diferentes momentos, como brincadeiras de roda, jogos, dramatizações e musicalização, por exemplo.

Momentos de atenção coletiva 

São aqueles em que existe o envolvimento do grupo ao discutir temas de interesse das crianças, e compartilhar pesquisas e experiências. Esses momentos envolvem ainda o registro das vivências dos pequenos. São exemplos as rodas de conversa, a investigação de temas de interesse coletivo, as assembleias em que se toma decisões em conjunto, e os períodos separados para a troca de saberes do grupo.

Momentos de atenção pessoal 

São os períodos em que o professor previamente otimiza higiene, repouso, alimentação, chegada e despedida. É essencial descrever e pontuar muito bem como essas dinâmicas vão se dar, considerando estrutura e materiais para progressiva independência das crianças, e inserindo os demais sujeitos que fazem parte da escola, como cozinheiros, equipe de limpeza, auxiliares de classe e as próprias famílias. Cada um precisa ter claro qual o seu papel no apoio, incentivo e bem-estar das crianças, que por sua vez devem ter garantidos os tempos adequados para as suas aprendizagens.


Caros professores e professoras, tendo tudo isso em mente, vale enfatizar que esse olhar globalizado e sistêmico, movido pela intencionalidade da ação pedagógica, é construído no constante movimento de reflexão-ação-reflexão, e gradativamente se torna parte da nossa identidade docente – fruto da compreensão de que tudo o que envolve o dia a dia com as crianças é potencial para o seu pleno desenvolvimento. 

Um abraço e até breve, 

Paula Sestari é professora de Educação Infantil da rede municipal de ensino de Joinville (SC), com 10 anos de experiência nessa etapa, e mestre em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, e foi eleita Educadora do Ano com um projeto na área de Educação Ambiental com a faixa etária das crianças pequenas.

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