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Jornalismo

Como mostrar para os alunos que empreender não é só abrir empresa

Tema se relaciona com a Educação Financeira e pode ser abordado de diversas formas em sala de aula, ajudando a turma a resolver problemas e abrir caminhos para o futuro, por exemplo

PorDimítria Coutinho

26/04/2022

Ilustração de um homem mais velho e outro mais jovem, plantando algumas mudas de plantas.
Crédito: Thiago Lopes (Estúdio Kiwi)/Nova Escola

O professor Nathan Mendonça se orgulha em dizer que, por causa das atividades propostas em suas aulas, conseguiu modificar a vida de toda uma comunidade. Ele incentivou os alunos a pensarem de forma empreendedora, e esse conhecimento foi levado adiante para seus familiares. 

Nathan dá aulas no Centro de Educação em Período Integral (CEPI) Dom Veloso, em Itumbiara (GO). No ano passado, ainda durante o ensino remoto, ouviu relatos de seus estudantes de que a situação econômica não estava fácil e decidiu auxiliar as famílias locais por meio da Educação Financeira e do empreendedorismo. Foi assim que surgiu o componente eletivo que ele leciona para a turma do 9º ano.

Na escola, cerca de 40% dos alunos são da zona rural, e muitos deles ajudam os pais no campo. “A gente conversa muito sobre projeto de vida, e o intuito deles sempre é ajudar os pais de alguma forma”, relembra Nathan. Com o incentivo do professor e muita pesquisa, a turma desenvolveu formas de tornar as hortas mais rentáveis, propondo aos agricultores locais uma série de soluções, que passam pela hidroponia, a rotação de culturas e a horta mandala. “A gente vê que algumas fazendas próximas começaram a replicar as soluções. Houve resultado positivo e influência na comunidade”, relata o professor.

Empreender é mais do que abrir empresas

Como no caso dos alunos de Nathan, empreender nem sempre significa abrir uma empresa ou revolucionar processos. “Uma das maneiras de ganhar dinheiro é o empreendedorismo, então, a temática faz parte da Educação Financeira. Mas não é só isso: empreender precisa ser lecionado como função social, pois pode ser uma forma de ajudar a comunidade. Essa é uma grande responsabilidade”, afirma Fabio Menezes, professor de Matemática dos Anos Finais do Ensino Fundamental na Prefeitura de Duque de Caxias (RJ) e professor da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Nas escolas, o empreendedorismo aparece como uma das formas de solucionar problemas. Fernando Dolabela, consultor e autor de programas de Educação Empreendedora para a Educação Básica, afirma que empreender é “um jeito de ver o mundo”, e que isso pode ser abordado nas aulas para materializar os chamados sonhos coletivos. Os sonhos coletivos são aqueles que pertencem a toda uma comunidade, como uma melhoria pontual na escola ou na rua de um bairro. 

A partir de uma dificuldade, é possível que os alunos pensem em soluções inovadoras. Não é mandatório que elas sejam executadas pelos próprios estudantes, reforça Fernando. Ele sugere que as ideias sejam valorizadas e levadas adiante como propostas para a direção da escola ou para o vereador do bairro, por exemplo. O problema solucionado pela turma de Nathan levou à melhoria da produtividade dos agricultores locais.

Em uma das escolas onde o professor Fabio leciona, não há água encanada. A questão foi levada para a sala de aula e os alunos planejaram novas alternativas para abastecer a instituição de ensino. “Tivemos de pensar no caminhão que vai e volta, na quantidade de água que cabe na caixa, na cisterna. Com isso, a gente trabalhou todas as questões matemáticas e ainda voltou o pensamento para a possibilidade de montar um negócio que se sustentasse”, conta o professor. “Nas escolas públicas, o que não faltam são problemáticas que podem ser usadas como motor de produção de conhecimento sobre empreendedorismo”, acrescenta.

Apurando o olhar

“Se a pessoa tem sensibilidade para encontrar problemas, ela tem potencial empreendedor”, afirma Fernando. Para que os alunos desenvolvam esse olhar ativo, é necessário o incentivo dos professores. E não é difícil encontrar problemas na própria vivência dos estudantes. Nathan comenta que eles são bastante criativos e adoram colocar a mão na massa. Recentemente, o docente participou de um bootcamp evento com dinâmicas que unem teoria e prática e capacitam os participantes, em geral estimulando atividades de programação com três de seus alunos, no qual eles tinham de prototipar um aplicativo. 

A ideia dos estudantes partiu de um caso que um deles vivenciou: sua família comprou um sofá e, quando o móvel chegou, ele não cabia na sala da casa. O trio então pensou na interface de um aplicativo que pudesse mostrar, em realidade aumentada, como os móveis ficam dentro de ambientes específicos, facilitando a compra. “Costumo deixar os meus alunos voarem e dou o apoio necessário”, comenta Nathan. Ele afirma que ouve atentamente os estudantes, valoriza suas ideias e faz questionamentos para que eles consigam aprimorá-las.

Amanda Dias, coach financeira e criadora do programa de emancipação Grana Preta, comenta que esse exercício de enxergar as problemáticas da sociedade pode ser de grande valia para o futuro dos próprios estudantes. “Quando o empreendedorismo entra na escola, ele não é só uma maneira de transformar pessoas em empresários. É uma forma de implementar essa cultura de resolver questões da vida”, afirma Amanda. “Eu falo muito sobre ‘empreender-se’. Quando a gente quer entrar em uma faculdade, por exemplo, precisa traçar uma rota, pensar em como adquirir recursos para isso. Empreender é transformar. E levar isso para dentro da escola é uma possibilidade de transformar o futuro e a nossa sociedade”, completa.

Como identificar problemas e criar boas soluções?
Os problemas da escola, da rua, do bairro ou da cidade podem ser o ponto de partida para que professores incentivem seus alunos a pensarem em soluções inovadoras para ajudar a comunidade. Para isso, é possível:

• Em rodas de conversa, questionar os estudantes sobre quais problemas eles veem ao redor e dentro da própria escola;

• Pedir para a turma observar problemáticas no caminho de casa;

• Realizar visitas com os alunos nos arredores da escola, questionando os moradores do bairro sobre quais dificuldades eles enfrentam e observando possíveis problemas.

Nesses exercícios, é importante que os professores tenham uma escuta ativa, valorizando as descobertas dos estudantes e incentivando-os a buscar soluções. Justamente porque o empreendedorismo pode ser usado para resolver qualquer problema, ele pode aparecer em todos os componentes curriculares, seja em projetos interdisciplinares ou em aulas pontuais.

Com a Educação Financeira em mente, vale a pena pensar como as soluções podem ser viabilizadas financeiramente. O objetivo deve ser transformar os aprendizados da sala de aula em riquezas para a comunidade. Confira alguns exemplos:

• Os problemas encontrados pelas crianças e adolescentes podem ser ambientais, relacionados a lixo ou saneamento básico, assuntos de Geografia e Ciências;

• Se questões relacionadas à saúde aparecerem, há soluções na Educação Física, como eventos esportivos com finalidades sociais;

• A Matemática aparece solucionando diversos tipos de problemas, inclusive viabilizando financeiramente as soluções;

• Em Arte, História e Língua Portuguesa, produções culturais e criações literárias podem suprir demandas da comunidade;

• O projeto de vida de cada estudante pode levar a um planejamento financeiro, dependendo do empreendimento pessoal almejado.

Profissão: empreendedor

O empreendedorismo também pode ser abordado nas escolas como uma opção de vida. Afinal, empreender também é uma profissão, e o assunto está diretamente relacionado à Educação Financeira quando pensamos no trabalho como fonte de renda. Nesse sentido, Amanda aconselha a não reduzir o assunto a startups de sucesso, unicórnios e megainovações. “Inovação não é só criar um algoritmo mirabolante. É fazer funcionar uma coisa que às vezes já existe, mas pode melhorar”, comenta a criadora do Grana Preta.

Para ela, é essencial usar referências locais e nacionais para que os alunos consigam se enxergar como futuros empreendedores. “Uma coisa que o Brasil já tem e que os gringos falam muito é a cultura maker. É um termo super em alta no mundo do empreendedorismo, mas cultura maker é a nossa gambiarra. Precisamos saber empoderar as pessoas para verem o quanto essas gambiarras do dia a dia também são uma forma de inovação. Por que falamos de Bill Gates e de outras referências de fora? A gente tem aqui, na nossa própria história, as ganhadeiras, que foram as primeiras empreendedoras em solo brasileiro”, exemplifica. Ganhadeiras eram mulheres negras, escravas ou libertas, que vendiam peixes e quitutes ou lavavam roupas para se sustentarem, ainda no século 19.

Para Fabio, o incentivo ao empreendedorismo deve surgir como uma das várias opções que os alunos têm para seus futuros. “Precisamos oportunizar essa vivência para que eles entendam que podem ser empreendedores. São vários caminhos e a gente pode dar escolha a eles. O problema é não ter escolha”, afirma. Amanda acrescenta que o empreendedorismo está diretamente relacionado com as novas profissões e que, por isso, é importante os professores se atualizarem para atender à demanda dos estudantes. “Hoje em dia, falta identificação com as profissões tradicionais. A geração Z não quer mais trabalhar só por dinheiro, precisa ver valor no trabalho. Eu converso com crianças e adolescentes, e eles querem ser influenciadores digitais. A economia digital criou novas opções, e a gente precisa se abrir para isso”, comenta.

Ela, que é jornalista de formação e viu no empreendedorismo de impacto social uma forma de se sustentar, conta que gostaria de ter tido essa porta aberta quando era mais nova, ainda na escola. “Eu sou testemunha do quanto é limitante estar em um sistema de educação que não coloca o empreendedorismo como opção. Eu nem conseguia pensar nessa possibilidade. O empreendedorismo impulsiona a criação de novas carreiras e de formas diferentes de trabalhar. Falar disso é fazer novos talentos e profissões florescerem.”

Consultor Pedagógico: Fernando Barnabé, professor de Matemática, integrante do Time de Autores e do Time de Formadores da NOVA ESCOLA, autor e editor de materiais didáticos.

Acesse aqui a página especial do projeto Educação Financeira Transforma e conheça todos os conteúdos da parceria entre a Nova Escola e o Instituto XP.

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