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Jornalismo

Alfabetização no 2º e 3º ano do Fundamental: estratégias para o cenário atual

Educadoras sinalizam possibilidades de trabalho para impulsionar as aprendizagens dos alunos, que retornaram após quase dois anos de ensino remoto emergencial

PorVictor Santos

13/04/2022

Foto: Getty Images

“Estou com uma turma do 3º ano que praticamente não fez o 1º ano em 2020 e completou o 2º em 2021 em três diferentes formatos: primeiro, um retorno presencial facultativo, duas vezes por semana, com rodízio de alunos; depois, ensino remoto e, por fim, o retorno obrigatório para todos, em novembro”, conta a professora Melina Borges Omitto, da EM Professor Mário Chorilli, em Piracicaba (SP). 

Esse relato ajuda a entender o cenário que se repete em diferentes salas de aula do 2º e 3º ano nas escolas públicas do país em 2022. Além de muito trabalho à vista, os educadores salientam que é o momento de ‘recalcular a rota’ para dar conta de tamanho desafio. Normalmente, esses dois anos já exigem que o professor faça um acompanhamento próximo dos alunos para consolidar o processo de alfabetização. No contexto atual, depois de praticamente um biênio no ensino remoto, o 2º e o 3º ano se tornam ainda mais desafiadores. 

“É preciso identificar o que ficou desses dois anos anteriores e trabalhar para que eles [os estudantes] avancem”, destaca Melina, que tem uma trajetória de 18 anos como docente, especialmente nos Anos Iniciais do Fundamental. “Faço meu planejamento pensando nas prioridades – primeiro o que é urgente e, depois, o que é importante, e incluo habilidades e competências do 1º e do 2º ano, antes de conseguir chegar às do 3º. Por exemplo, se meu aluno não consegue escrever o nome, como vou trabalhar com o gênero textual bilhete? É algo que requer conhecimentos prévios”, explica. 

Devido às dificuldades de acesso às tecnologias que muitos estudantes tiveram durante esses dois anos de ensino remoto emergencial, as educadoras ouvidas pela NOVA ESCOLA indicam que uma característica que sempre existiu nas salas de aula se acentuou: as turmas estão ainda mais heterogêneas em relação ao nível de aprendizado. “Agora, é crucial ver a diversidade como uma vantagem”, crava Mazé Nóbrega, consultora de Língua Portuguesa e professora de pós-graduação do Instituto Vera Cruz, em São Paulo (SP). “É hora de pensar nas possibilidades de interlocução com as crianças e delas entre si, com um contínuo acompanhamento dos estudantes, o que vai propiciar que o professor realize boas intervenções.”

Nesta segunda reportagem do Especial Alfabetização, detalhamos, com o apoio de educadoras alfabetizadoras, quais as estratégias possíveis para o trabalho com o 2º e 3º ano do Ensino Fundamental.

A BNCC e o ciclo da alfabetização

“Os anos de 2020 e 2021 seriam complexos para a alfabetização com ou sem pandemia, porque foram justamente o biênio da efetiva implantação da BNCC”, comenta Heloísa Jordão, doutora em Linguagem e Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), professora do Ensino Fundamental (Anos Iniciais e Finais) na rede municipal de São Paulo (SP) e formadora de professores há mais de 15 anos nas redes públicas paulistas. 

Este guia completo da Base, elaborado pela NOVA ESCOLA, reforça alguns dos pontos cruciais do documento, como o foco em habilidades e competências essenciais que os alunos devem desenvolver a cada ano, o olhar para os quatro campos de atuação (vida cotidiana, artístico-literário, práticas de estudo e pesquisa e vida pública) como eixos estruturantes e o destaque para o multiletramento por meio do trabalho com diferentes gêneros textuais. 

Além desses aspectos, chama a atenção a mudança do fim do ciclo da alfabetização, que passou do 3º para o 2º ano. “Com isso, o 2º ano se torna uma etapa com a qual precisamos ter bastante cuidado”, salienta a consultora Mazé. “Mas ainda que a Base considere 1º e 2º anos como ciclo de alfabetização, é interessante colocarmos o 3º nesse pacote, já que ele foca fortemente em leitura e escrita”, completa. Ao final do 3º ano, é esperado que os alunos tenham fluência para ler e escrever e percebam as regularidades do sistema ortográfico e os principais padrões da escrita (segmentação de palavras, pontuação, paragrafação). Esta série de reportagens especiais da NOVA ESCOLA, produzida em 2021, traz o aprofundamento desses temas.


Sondagens, hipóteses de escrita e possibilidades de intervenção
 

No trabalho com a alfabetização no 2º e 3º ano, é preciso mais do que nunca realizar sondagens periódicas para investigar o que o aluno já sabe. “Uma [avaliação] diagnóstica que inclua palavras de sílabas simples e complexas é uma boa opção”, diz Mazé. Ela destaca que essas sondagens requerem olhar atentamente para as hipóteses de escrita das crianças e devem ocorrer de maneira constante ao longo de todo o ano. 

Com apoio da especialista, construímos um material que lista todas as hipóteses (icônica, garatuja, pré-silábica, silábica, silábico-alfabética, alfabética e ortográfica) e traz, como complemento, sugestões de atividades para cada uma dessas fases:

 

“Quando pensamos em crianças no ciclo de alfabetização, há uma diversidade de saberes que deve ser explorada nas sondagens”, observa a consultora. “Podemos ter, por exemplo, uma criança alfabética que ainda está muito fixada na ideia de duas letras para cada sílaba e que não lida bem com sílabas complexas – e que precisa, então, ser desafiada para entender outras organizações silábicas. Uma possibilidade é brincar com essa ideia de, se colocar a letra “r” em uma determinada posição, a palavra vira outra, como em ‘pato’ e ‘prato’.” 

O nível seguinte, continua Mazé, envolve explorar os dígrafos (“lh”, “nh”, “ch”) e as marcas de nasalidade com “m” ou “n” no final das sílabas, no interior das palavras. Assim, a sondagem pode compilar palavras com diferentes padrões silábicos (sílabas simples e complexas) e obter informações para que as crianças avancem não só na compreensão do sistema de escrita, mas também na compreensão do sistema ortográfico, descobrindo as regularidades. 

Para auxiliar na construção dessas sondagens, a especialista Heloísa Jordão aponta que algumas habilidades da BNCC do 3º ano dialogam muito com as do 2º ano. “Então, um bom caminho de priorização curricular para os professores, pensando nesses alunos, é olhar com bastante carinho para as habilidades de linguística e semiótica (que vão explorar questões ligadas à alfabetização e ortografização) desses dois anos e ver como a BNCC estabelece a progressão dessas habilidades, sempre de forma vinculada aos campos de atuação. Por exemplo, no campo artístico-literário, a análise linguística pode se dar dentro de um conto de fadas, analisando marcadores temporais.” 

Para isso, finaliza a educadora, “é interessante considerar as habilidades EF02LP ou EF03LP, da 1 até a 10, da BNCC. Elas podem oferecer uma matriz de referência para elaborar uma avaliação diagnóstica, permitindo entender como está a consolidação da alfabetização – para responder a perguntas como: o aluno já está escrevendo palavras? Consegue escrever uma lista de maneira autônoma? E agora, como vamos fazer para produzir um texto?”.

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Agrupamentos produtivos e estratégias 

Atrelada a esse trabalho constante de sondagem, uma das possibilidades mais relevantes, nas palavras das educadoras entrevistadas, são os agrupamentos produtivos. Basicamente, explica Mazé, isso “envolve elaborar propostas que agrupem crianças com hipóteses de escrita diferentes, mas não tão discrepantes, e fazer intervenções nesses agrupamentos”. 

A professora Ana Teresa Milani, que até 2021 atuou nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (1º, 2º e 3º ano) na EE Caetano de Campos, em São Paulo (SP), e agora está em uma nova diretoria de ensino, aguardando a atribuição de aulas, conta que, em meio ao complexo período pandêmico, a experiência com duplas produtivas rendeu momentos ricos em sala de aula. 

“Eu apresentava uma história em quadrinhos sem as falas, e as crianças tinham de contar essa história. Como havia alunos alfabéticos, com condições de escrever, ainda que com erros ortográficos, e crianças não alfabéticas, que ainda não dominavam a escrita e a leitura, organizei duplas produtivas, com um escritor e um colaborador”, recorda. Com isso, ambos discutiam a imagem e construíam a narrativa juntos. “A criança não alfabética percebe, por exemplo, que tem condições de contar a história tanto quanto o colega, e a troca entre ambas é muito interessante – e rende outros momentos, como contar essas histórias para o restante da turma. São iniciativas que fazem com que reflitam sobre o porquê da escrita e a sua própria função social: escrevemos para alguém que vai ler.”

A professora, no entanto, pondera algo que a consultora Mazé também alerta: “Essas duplas têm de estar em níveis próximos, porque, com o pré-silábico e o alfabético juntos, corre-se o risco de haver um copiando o outro como espectador, sem muita troca”.

Outra proposta é apresentada pela professora Melina, de Piracicaba. “Quando a ideia é agrupar por hipótese, podemos trabalhar com parlendas. Lidar com gêneros dos quais eles já têm na memória e que contam com rimas facilita para que assimilem construções.” Ela dá um exemplo com a parlenda “meio-dia/ macaco assobia/ panela no fogo/ barriga vazia”. “Para os estudantes alfabéticos, posso recortar as letras e pedir que montem o texto todo, letra por letra, com as letras móveis. Já para os silábicos, posso pegar o mesmo texto, mas recortá-lo por sílabas. Já para os pré-silábicos, posso ‘fatiar’ o texto por versos (‘meio-dia’ na primeira tarja, ‘macaco assobia’ na segunda, ‘panela no fogo’ na terceira, ‘barriga vazia’ na quarta).” 

Com isso, segundo ela, é possível contemplar aqueles que primeiro necessitam entender o formato do texto; depois, os que precisam entender as sílabas, e os demais podem compreender a construção das palavras. Para a formadora Heloísa Jordão, atividades como essa funcionam muito bem, “já que temos todo mundo trabalhando o mesmo texto-base da parlenda, mas com diferentes níveis de complexidade”.

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Este curso tem como objetivo oferecer subsídios para que o professor do Ensino Fundamental coloque em ação estratégias que ampliem o olhar para a diferença, focando na recepção de alunos e famílias, nos processos de socialização e diferenciação e nos processos avaliativos. 


Leitura e gêneros textuais 

Em meio às diversas propostas que professores do 2º e 3º ano devem colocar em ação, vale não perder de vista a questão da leitura de textos de diferentes gêneros. “Iniciativas com foco no processo investigativo da língua, com jogos, desafios e investigação, podem e devem ser incorporadas. Mas os educadores não podem perder de vista, em meio à priorização curricular, que o trabalho com gêneros é o cerne e que é preciso contemplar ao menos um gênero por campo de atuação”, diz Heloísa. 

Nesse processo, a especialista elenca algumas possibilidades. “No campo da vida pública, a gente pode trabalhar com manchetes – não precisa ser a notícia inteira. No de práticas de estudo e pesquisa, pode ser uma ficha técnica de animais e, depois, até pensar em projetos relacionados a isso. No de vida cotidiana, textos instrucionais, como receitas, têm uma estrutura textual-discursiva interessante com lista de ingredientes e descrição do modo de preparo.” 

Como ressalta Melina, os gêneros norteiam as atividades nos Anos Iniciais contemplando todos os eixos: oralidade, leitura, escrita, análise e compreensão da língua e também questões ortográficas. Para consolidar essa missão, ela traz duas possibilidades que já aplicou em sala de aula. 

“Em vez de preparar uma tradicional caixa com opções de livros, uma sugestão é montar uma caixa de leitura com diferentes gêneros textuais: receita, bula de remédio, folheto de supermercado, carta, e-mail, reportagens e notícias de jornal. É interessante para que percebam que não existe um único formato de texto e que cada um serve para uma função”, explica. “Outra alternativa é montar um painel de gêneros textuais. Por exemplo, se trabalhamos a parlenda, podemos colá-la no painel. O mesmo ocorre com a receita, a fábula e a reportagem de jornal. Desse modo, eles visualizam a estrutura do texto, e mesmo os não alfabéticos conseguem perceber a organização.” 

Por fim, a professora Ana Teresa enfatiza a importância do acompanhamento contínuo dos estudantes para escolhas mais certeiras dos gêneros textuais ou mesmo das estratégias a serem aplicadas com a turma. “A sondagem nos ajuda a ver realmente como estão os nossos alunos e a atuar nessa realidade. Então, se o gênero para o 2º ano é bilhete e para o 1º é cantiga, mas os alunos não assimilaram tão bem as questões do 1º ano por conta do ensino remoto, podemos sim trabalhar com cantigas agora [no 2º ano]”, frisa a educadora. “Vale reforçar que, para saber utilizar as palavras, as crianças têm de ser desafiadas sempre, e cabe a nós professores estarmos o tempo inteiro trazendo novidades.” 

Consultoria pedagógica: Mazé Nóbrega, consultora de Língua Portuguesa e professora de pós-graduação do Instituto Vera Cruz, em São Paulo (SP).

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