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Jornalismo

Engaje as turmas de Anos Finais explorando a Matemática do cotidiano

Educadora compartilha experiência que envolveu todos os professores da escola para criar as simulações de um mercado e banco na escola

PorIvonete Dezinho

05/04/2022

Projeto envolvendo todas as turmas dos Anos Finais faz uma simulação de um banco e de um mercado para aproximar a Matemática do seu uso no dia a dia. Crédito: Acervo pessoal de Ivonete Dezinho

Dar aula de Matemática nos Anos Finais é um desafio. Logo no início da minha trajetória como professora percebi as “caras e bocas” toda vez que pisava em sala de aula. Já ouvi tantas vezes comentários como “aula de Matemática de novo”, “ninguém merece”, entre tantos outros. 

Observar essas reações me motivaram desde cedo a sair da minha zona de conforto. Para mim, a Matemática é um universo incrível, cheio de formas, fórmulas, desafios, descobertas, histórias e números que me fascinam. Ela me permite ler, interpretar o mundo e solucionar problemas cotidianos. Por isso, não conseguia entender o porquê de tanta aversão ao componente que, pessoalmente, era tão especial. 

Senti a necessidade de mudar essa visão que existia entre os alunos para que vissem a Matemática do mesmo modo que eu a via. O meu seguinte passo foi pensar em estratégias. Mostrando? Falando? Não, eles precisam descobrir por si mesmos. De que forma? Vivenciando, pesquisando, experimentando, construindo, testando, errando, errando novamente, protagonizando. 

Foi dessa forma que comecei a elaborar projetos onde os alunos tivessem a oportunidade de perceber a aplicabilidade da Matemática nas atividades cotidianas. Explorei o sistema monetário brasileiro, a Educação Financeira, alimentação, saúde e esporte, o Índice de Massa Corporal (IMC), a relação entre a Matemática e a literatura, os recursos hídricos, usei jogos, as profissões, os dados da Covid-19, entre outros temas que aproximaram o componente do dia a dia dos estudantes.

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Aproximando toda a escola do componente

Anos atrás, a escola onde trabalho era considerada “o patinho feio” da rede municipal de Naviraí (MS). As nossas notas nas avalições externas eram abaixo da média das demais instituições. Por isso, durante uma reunião pedagógica, nosso diretor e equipe pedagógica falaram da necessidade de pensar em ações conjuntas que contribuíssem para mudar essa realidade. Encaramos o desafio e criamos um projeto interdisciplinar envolvendo todo o Ensino Fundamental. 

Em minhas aulas criei a iniciativa “A Matemática em minha vida”. O objetivo era construir um mercado e um banco. Neles, os alunos puderam entrar em contato com aspectos da Educação Financeira e desenvolveram habilidades de leitura, interpretação e resolução de situações-problemas. 

O 9º ano foi o monitor do projeto. Foram responsáveis por organizar e coletar embalagens para montar nosso estabelecimento. Criaram também equipes responsáveis pela pesquisa dos preços na internet e nos comércios próximos. Depois etiquetaram os valores de todas as embalagens. 

Enquanto eles faziam esse trabalho, os demais alunos estavam estudando o sistema monetário brasileiro de acordo com o planejamento de cada professor e as especificidades de cada turma. 

A montagem do mercado e do banco foi feita no pátio da escola. Todos os anos participaram da atividade. Cada professor decidiu o valor, em reais, que cada um teria para as compras. Esse orçamento era disponibilizado em forma de cheque, o qual os estudantes tinham de trocar no banco. O aluno poderia ser cliente, o bancário, o caixa ou participar das três funções de acordo com o planejamento do professor. 

As cédulas e moedas utilizadas no projeto foram confeccionadas em uma gráfica em quantidade suficiente para abastecer os caixas do banco e do mercado – posteriormente, elas ficaram disponíveis para uso dos professores. 

No mercado, cada caixa possuía calculadoras com bobina de papel. Com isso, os alunos tinham o comprovante da compra com o valor unitário das mercadorias e o total. Essa nota foi utilizada posteriormente para trabalhar situações-problemas a partir da experiência.

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Lúdico e rico em aprendizagens

Nas primeiras simulações de compras identificamos as dificuldades em fazer estimativas do valor total da compra e do orçamento que possuíam. Muitos chegavam ao caixa e descobriam que não tinham dinheiro suficiente para pagar todos os produtos escolhidos, outros não sabiam digitar na calculadora os números decimais, alguns não sabiam dar o troco ou trocar o cheque quando o valor envolvia centavos.

Alunas participam de experiência de montar um mercado “de mentira” na escola. Foto: Acervo pessoal Ivonete Dezinho

Fizemos intervenções durante a própria dinâmica para tirar as dúvidas. As dificuldades foram sendo superadas e os alunos sentiram-se mais confiantes na resolução dos problemas que surgiam. 

Outro ponto positivo foi a interação entre colegas da mesma turma e entre estudantes de anos diferentes. Os maiores se sentiam valorizados por ajudar os menores e todos aprenderam com a atividade – inclusive os professores. 

Quando encerramos esse momento com todas as turmas parte das embalagens foram guardadas no depósito da escola e as usamos para estudar as formas geométricas, os sólidos geométricos, volume e planificações – as demais foram doadas para os coletores de material reciclável de nosso município.


A boa notícia é que aquele objetivo de melhorar nossas notas nas avaliações externas foi bem-sucedido. Passamos a ocupar o primeiro lugar no ranking das escolas municipais. Toda comunidade comemorou os resultados. A equipe se fortaleceu e continuamos unidos buscando as melhores alternativas para solucionar os problemas diários e oferecer o melhor para nossas crianças e adolescentes. 

Queridos colegas espero que meu relato tenha te inspirado a criar projetos incríveis envolvendo Matemática e aproximar os estudantes desse componente. O que tem feito para tornar suas aulas mais prazerosas? Compartilhe conosco, nos comentários, suas experiências. 

Um abraço e até breve, 

Ivonete Dezinho 

Ivonete Dezinho é professora há 36 anos, lecionou por 25 anos na rede estadual de Educação de Mato Grosso do Sul nos Anos Inicias do Ensino Fundamental e, há 19 anos trabalha com Matemática na EMEF Professor Milton Porto, em Naviraí (MS). Em 2014, foi uma das vencedoras do Prêmio Educador Inovador com o projeto “A matemática na minha vida”. Em 2018, recebeu o Prêmio Educador Nota 10 e foi vencedora da premiação popular #EsseProjetoé10 com o projeto “De pai para filho: uma abordagem do ensino da matemática nas profissões”. Em dezembro de 2018, recebeu a medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo pelo Ministério da Educação (MEC). Em 2020, foi a vencedora do Prêmio Educador Digital com o trabalho “Boas Práticas na Educação Remota com o projeto: Da ponta do dedo a ponta do lápis: o ensino da Matemática na modalidade remota.”

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