Compartilhe:

Jornalismo

Como organizar a recomposição de aprendizagens na alfabetização

A professora Mara Mansani compartilha 5 pontos importantes para levar em consideração neste trabalho

PorMara Mansani

31/03/2022

Crédito: Getty Images

Durante a volta às aulas presenciais temos de enfrentar os impactos negativos que a pandemia deixou na Educação. Na alfabetização, podemos perceber isso nitidamente: crianças que não conseguiram acompanhar as atividades remotas e tiveram seu desenvolvimento prejudicado, pois faltaram elementos essenciais para que a aprendizagem acontecesse.

Não é possível resolver essa questão complexa das lacunas e defasagens com ações isoladas. Existe um consenso entre os especialistas e estudos que não há como “recuperar”, pois, em muitos casos não houve acesso às atividades remotas, então não é possível consolidar o que efetivamente não foi realizado. Com isso, surge a ideia da recomposição de aprendizagem, que combina ações nas frentes de avaliação, formação dos professores, revisão do currículo, acolhimento socioemocional, entre outras – saiba aqui tudo que está contemplado nesse esforço.

Especial Planejamento

Nesta série de reportagens, apresentamos orientações e exemplos práticos para construir os planejamentos na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.


O que nós, professores alfabetizadores, podemos fazer em sala de aula para garantir o avanço de todos nossos estudantes? Separei cinco pontos importantes para levar em consideração:

  1. Refletir sobre a prática pedagógica

Há muito o que fazer e algumas ações estão diretamente ligadas à nossa prática pedagógica: pensar a gestão do tempo e dos espaços de nossas aulas, encontrar estratégias didáticas que deem conta de atender as necessidades de desenvolvimento da turma, por exemplo.  

  1. Centralidade das avaliações

Ter um olhar atento com os alunos, analisar os dados obtidos nas avaliações e elencar as habilidades prioritárias no currículo escolar são tarefas imprescindíveis para planejar a alfabetização.


No diagnóstico, faça o mapeamento do que ainda não foi possível desenvolver, como está o socioemocional dos alunos e em qual hipótese de escrita cada um se encontra. Todos esses elementos te darão um norte para pensar sua prática.

  1. Explore diferentes tipos de agrupamentos

Uma das estratégias que vem sendo adotadas por algumas redes de ensino, inclusive nas que trabalho, é a reorganização dos estudantes em agrupamentos produtivos de acordo com as habilidades que ainda precisam ser desenvolvidas e/ou consolidadas. Isto é, ao dividir os alunos levamos em consideração o nível de aprendizagem e a hipótese de escrita de cada estudante.

Essa organização, também chamada em algumas redes de nivelamento, pode ocorrer dentro de uma mesma turma – especialmente neste momento que temos grupos ainda mais heterogêneos – ou com crianças de anos diferentes.

Por exemplo, alunos que estão no 4º ou 5º ano, mas que ainda não consolidaram determinadas habilidades de leitura e/ou escrita podem ser agrupados com estudantes do ciclo de alfabetização que estejam em condições próximas. A cada avanço, os alunos podem ser remanejados para outros grupos.

Apoie a alfabetização de alunos impactados pela pandemia

Saiba como apoiar alunos de 3º a 5º ano que estão com dificuldades na leitura e na escrita. Confira reflexões e estratégias para estimular os estudantes com defasagens de aprendizagem.


Esses momentos de colaboração são realizados, pelo menos, uma vez por semana nas escolas em que trabalho. A orientação é que o professor responsável por cada agrupamento planeje aulas diferenciadas, com práticas pedagógicas lúdicas que potencializem a aprendizagem.

Em um dos agrupamentos, por exemplo, um educador pode ficar responsável pelas habilidades previstas na produção de texto; outro, pela sala de leitura; um terceiro cuida da alfabetização inicial. No entanto, tudo isso deve ser organizado de forma atender a realidade da escola.

Em uma das escolas em que trabalho, essa organização já acontecia antes da pandemia e obtivemos bons resultados, por isso, neste momento, mantivemos a prática. O que temos percebido é que essa estratégia favorece o bom aproveitamento do tempo dos alunos em sala de aula, pois eles colocam a mão na massa e participam de atividades colaborativas em que um contribui com o conhecimento do outro. Enquanto o professor tem a oportunidade de fazer intervenções diretamente nas necessidades de cada estudante.

  1. É hora de inovar nas aulas

Atividades mão na massa, propostas que promovam o desenvolvimento socioemocional das crianças e fazer um bom uso de recursos tecnológicos (quando for possível) são elementos que podem ser eficazes para o avanço da aprendizagem e desenvolvimento das nossas crianças, adolescentes e jovens.

Propostas que envolvam cápsulas do tempo (que permite explorar a escrita e as emoções); rodas de leitura temáticas; construção de materiais coletivos como livretos; uso de jogos; e a construção de murais digitais colaborativos são algumas estratégias que podem ser interessantes para desenvolver a Língua Portuguesa e Matemática no ciclo de alfabetização.

Curso gratuito: use diferentes gêneros textuais e metodologia ativa na alfabetização

Entenda a importância do planejamento intencional dos espaços na sala de referência das crianças de forma a garantir que elas, efetivamente, tenham contemplados os seus direitos de aprendizagem propostos na BNCC.  

  1. Garantir os momentos de estudo coletivo

Essas ações e outros caminhos podem (e devem) ser discutidas e planejadas de forma colaborativa dentro da escola entre a equipe pedagógica ou com a rede de ensino. Além disso, é essencial ter momentos na rotina de formação e estudo de todos os professores – seja na alfabetização ou em qualquer outro segmento.

Podemos reverter esse cenário desafiador que nos encontramos hoje na Educação. Pode ser que levemos mais de um ano, mas é possível recompor as aprendizagens.

Então, sigamos todos juntos pela alfabetização todos nossos estudantes! Como vocês estão planejamento esse trabalho na sua escola? Me conte nos comentários!

Um abraço e até a próxima,

Mara Mansani

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.

continuar lendo