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Jornalismo

Qual é o papel do coordenador pedagógico em ações de recomposição de aprendizagem?

Planejamento e trabalho coletivo são essenciais para o gestor apoiar os professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental e, juntos, minimizarem os danos causados pela pandemia

PorCarol Firmino

29/03/2022

Equipe escolar na EE Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG).
Rosane Tavares, coordenadora da EE Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG), conta com a equipe de professores para alinhar a nova rotina da escola. Crédito: Natalia Elmor/NOVA ESCOLA

Nos últimos dois anos, as escolas precisaram reformular práticas e buscar novas estratégias pedagógicas diante do cenário educacional que se estabeleceu com a pandemia de Covid-19. Ainda assim, os prejuízos eram esperados: segundo relatório lançado pela Unesco, o Unicef e o World Bank Report, a crise que interrompeu os sistemas educacionais e fechou escolas afetou mais de 1,6 bilhão de alunos em todo o mundo.

No Brasil, na segunda metade de 2021, a retomada parcial do ensino presencial começou com um esquema misto de atividades. Agora, coordenador, gestor, alunos e professores voltam a se encontrar presencialmente, nessa rotina próxima de um ano regular, mas que ainda prevê novidades. Diante disso, como estabelecer ações prioritárias? Uma das novas terminologias e palavras-chave para conduzir esse retorno é a recomposição das aprendizagens. Trata-se da retomada do aprendizado que não aconteceu por causa do atípico cenário pandêmico, com ações para melhorar a qualidade do ensino remoto emergencial, combater a evasão escolar, aprimorar a modalidade mista, garantir um retorno presencial seguro às escolas e cuidar do bem-estar emocional dos estudantes (leia mais a respeito deste conceito aqui)

Para aprofundar o tema, a NOVA ESCOLA preparou uma série de reportagens que contam com a consultoria educacional de Luciana Hubner, coordenadora pedagógica do Prêmio Educador Nota 10. “Passamos pelo ‘susto’ do fechamento das escolas, da ida para o digital, do desafio que fez com que tivéssemos de realizar modificações rápidas. O coordenador teve um papel importante nessa fase. Depois, com a pandemia já instalada, também precisou mostrar aos professores que a tecnologia não é sua substituta, mas uma ferramenta que pode potencializar o trabalho educacional”, diz. Luciana destaca que é “hora de dar voz e vez ao coordenador" para que ele compartilhe as dificuldades e soluções que encontrou. 

Com foco nos Anos Finais do Ensino Fundamental, o primeiro texto desta trilha começa justamente com a discussão sobre o papel do coordenador pedagógico no processo da recomposição. É esse profissional quem apoia o desenvolvimento dos professores, principalmente em momentos de crise, e organiza a equipe para atuar de maneira coletiva. 

Parceria no diagnóstico e apoio na organização

De acordo com Priscila Giovani, especialista do núcleo de coordenação pedagógica da Comunidade Educativa CEDAC, o diagnóstico guiado pelo coordenador é importante frente à realidade ainda mais heterogênea que as escolas demonstram atualmente. “Existem os objetivos de aprendizagem e a vontade de apoiar o desenvolvimento dos estudantes, mas, por outro lado, há diferentes saberes. Então, é preciso olhar para o que os estudantes sabem agora a fim de planejar e intervir de forma específica para diferentes grupos”, explica Priscila. Nesse caso, a parceria entre professor e coordenador se torna essencial. 

Equipe docente da EE Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG), sentados em uma mesa redonda no momento de planejamento.
Reuniões pedagógicas e para troca de experiências são ainda mais essenciais na retomada presencial para planejar as ações de recomposição de aprendizagens. Crédito: Natalia Elmor/NOVA ESCOLA

“Com a pandemia, todos precisaram dar as mãos e pensar como agir juntos. Agora, em vez de os coordenadores dizerem o que os professores devem fazer, por que não sentar e planejar com eles as estratégias de acompanhamento visando o diagnóstico?”, expõe a especialista. A partir de um cuidadoso processo de avaliação, os dois conseguem olhar mais profundamente para a necessidade dos estudantes e considerar a aprendizagem deles ao agir. 

“A tendência é sempre trabalhar com o mesmo planejamento para todos, olhando para as questões do currículo. É aqui que o coordenador pedagógico deve apoiar o professor e ajudá-lo a reorganizar o aprendizado de maneiras distintas dentro da turma. Isso envolve ter mais de um docente atuando no mesmo projeto, reagrupamentos duas vezes por semana e outras iniciativas”, exemplifica Priscila.

Escuta, acolhimento e muito trabalho

Na EE Doutor Pompílio Guimarães, em Leopoldina (MG), Rosane Tavares é coordenadora dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Desde a primeira semana de março deste ano, a unidade segue com aulas 100% presenciais, apesar de enfrentar algumas dificuldades na retomada em razão dos estragos que as chuvas causaram no estado de Minas Gerais nos últimos meses. 

Rosane explica que as ações pedagógicas nesse momento se baseiam na análise de respostas dos alunos aos PETs (Plano de Estudo Tutorado), que foram recebidas pelos professores em 2021 e enviadas à coordenação para serem colocadas em planilhas individuais. Com o resultado desse material, de avaliações realizadas no início do ano e dos relatos das famílias, a equipe pretende “realizar uma intervenção pedagógica com tarefas simples, porém bem-feitas, para que sejam eficazes em minimizar as defasagens observadas e manter nos alunos o prazer de frequentar as aulas”, afirma. 

Por lá, a coordenação faz uma escuta ativa, oferecendo caminhos para as dificuldades dos docentes e tranquilizando-os para que não se sintam obrigados a trabalhar as habilidades da série sem que os alunos possuam os pré-requisitos necessários. “Fazemos reuniões com cada professor e por áreas de conhecimento. Assim, podemos traçar estratégias, definir objetivos e aprimorar atividades interdisciplinares”, conta Rosane. “Além da assistência diária, existe uma agenda com horário marcado uma vez por mês para que eu possa acompanhar o desenvolvimento do plano de curso e as dificuldades encontradas, além de sugerir possíveis adaptações. Nesse processo, consigo avaliar a conexão entre teoria e prática, propor novas intervenções, dar ao professor o suporte que ele necessita e ouvi-lo sobre suas conquistas e angústias”, completa. 

Rosane Tavares em frente a alunos na sala de aula.
Por atuar dentro e fora da sala de aula, Rosane consegue acolher com mais compreensão as dificuldades de professores e alunos. Crédito: Natalia Elmor/NOVA ESCOLA

Ela, que também é professora, reconhece que as conversas formadoras entre coordenadores e professores ajudam não apenas a delimitar iniciativas pedagógicas, mas a estreitar as relações interpessoais e aumentar o companheirismo. “Muitas vezes, é na simplicidade que as coisas acontecem, com um: ‘Oi, tudo bem? O que você precisa?’”, diz. Além disso, no caso da EE Doutor Pompílio Guimarães, entre as propostas mais práticas de formação continuada desses profissionais está o incentivo ao uso de tecnologias e da sala de informática e o apoio àqueles que possuem mais dificuldade, com o objetivo de ajudá-los a mudar a didática em benefício do aprendizado. E espera-se que isso reflita tanto no ensino da matéria quanto nas avaliações.

Priorização curricular e responsabilidades das Secretarias de Educação

Raph Gomes dos Santos, especialista em gestão pedagógica de redes estaduais de ensino e colaborador do Instituto Reúna, explica que as Secretarias de Educação têm um papel fundamental no sucesso do trabalho do coordenador pedagógico e dos professores na jornada da recomposição de aprendizagens. “As Secretarias funcionam como o meio para que os projetos sejam colocados em prática e os alunos aprendam”, diz. Espera-se que elas acompanhem avaliações diagnósticas e processuais ao longo do ano, possibilitem momentos formativos para os docentes da rede, olhem para o trabalho dos coordenadores e identifiquem se esses profissionais desempenham um papel alinhado à função esperada, além de investigar, junto às escolas, se há acervo disponível para realizar atividades.  

A priorização curricular, por exemplo, parte de um documento que estabelece estratégias e define um patamar de conhecimento no qual os estudantes devem estar ao começar cada ano letivo. Nesse caso, Raph alerta que o alinhamento das escolas com as Secretarias de Educação é indispensável: “Priorizam-se as habilidades centrais de maneira intencional, mas isso não pode ser uma decisão apenas de uma unidade escolar, pois, se ela não segue o que firma a Secretaria, corre o risco de cometer alguma irregularidade”. Juntas, escola e Secretaria precisam identificar quais são os materiais e recursos didáticos para viabilizar o que foi priorizado. 

“Nesse processo, o coordenador é muito presente, pois, desde o início, é ele quem vai dar sentido às políticas pedagógicas propostas pela Secretaria quando implementá-las em sua escola. Assim, na retomada das aulas presenciais, há uma necessidade maior de definir o papel desse profissional como alguém que está ao lado do professor, que é seu formador e orientador”, conclui.

Como discutir estratégias de recomposição das aprendizagens
Dicas para o coordenador colocar em prática com o time de professores

- Fortalecer as reuniões pedagógicas e incluir o tema da recomposição nas pautas de formação para serem debatidas;

- Tirar o foco dos estudos de textos teóricos e fomentar a exposição de situações práticas para serem analisadas a partir de uma questão e discutidas junto aos professores com a mediação do coordenador;

- Estudar, pesquisar e escolher bons exemplos para levar aos professores e promover discussões a fim de adaptar propostas à realidade do grupo;

- Criar rotinas de acompanhamento das aprendizagens de cada turma com base no que o professor registra sobre as dificuldades e evoluções dos alunos, com planilhas, por exemplo;

- Construir, em grupo, atividades adicionais e complementares para os estudantes;

- Ter conversas individuais com os professores para propor atividades considerando priorização curricular e intervir nas dificuldades;

- Estabelecer diálogos de confiança e sem julgamento, que possibilitem acompanhar aulas in loco, combinadas previamente, com objetivo pedagógico;

- Revisar  a organização dos grupos e dos tempos escolares nas rotinas.

Consultoria pedagógica: Luciana Hubner

Esta reportagem faz parte do projeto Recomposição de Aprendizagens nos Anos Finais do Fundamental. Confira os demais conteúdos realizados em parceria com o Instituto CSHG e Fundação Telefônica

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