Compartilhe:

Jornalismo

Como a comunicação não-violenta auxilia no dia a dia da Educação Infantil?

Essa prática promove a escuta atenta e colabora para que os conflitos se resolvam de forma mais empática e eficaz. Confira algumas dicas de como utilizá-la com as crianças

PorPaula Sestari

15/03/2022

Crédito: Getty Images

Olá, professores e professoras! Na conversa desta semana, resolvi trazer um tema que está em alta e que talvez você já tenha ouvido falar: a comunicação não-violenta (CNV). Segundo o psicólogo americano Marshall Rosenberg, autor de um livro referência nessa área, trata-se de uma prática baseada em habilidades de linguagem e de comunicação, que nos apoia na maneira como nos expressamos e ouvimos uns aos outros. Um dos pilares da CNV é a escuta, que ocorre de maneira estruturada, planejada, e que ultrapassa aquilo que emerge da situação vivida, resgatando seu histórico e as oportunidades de aprendizagens a partir dali.

Por exemplo: a partir dessa perspectiva, quando nós nos deparamos com uma situação conflituosa, o carro-chefe para solucioná-la será a escuta atenta. É por meio dela que, inicialmente, investigamos as motivações para a situação e os possíveis gatilhos. Depois, busca-se manter um canal de acolhimento livre de julgamentos prévios, com diálogo aberto para que os envolvidos expressem sua visão e seus sentimentos. Por fim, deixa-se claro o que se espera de cada um para que o conflito se dilua, e dessa forma, seja possível dar mais um passo para o fortalecimento da confiança nas relações. 

A esse respeito, tenho refletido sobre o modo como os vínculos se constituem no cotidiano das escolas de Educação Infantil – principalmente, em como nutrir relações mais harmoniosas e empáticas, tendo em vista um certo automatismo que pode tomar conta da nossa realidade quando temos, por vezes, um número de crianças elevado para atender. Já repararam que a nossa escuta corre o risco de ficar artificial e repetitiva nesse contexto? Então, como podemos nos dedicar melhor para as questões que as crianças nos trazem? 

Penso que é justamente aí que a abordagem da comunicação não-violenta se torna útil, nos ajudando a atuar de maneira mais assertiva e clara. Por isso, trago a seguir exemplos de situações do dia a dia envolvendo os quatro componentes propostos pela CNV, demonstrando como essa prática pode nos apoiar em busca de um bom fluxo na nossa comunicação com os bebês e crianças.

1. Capacidade de analisar (observação)

Considerando ações como escuta atenta e um olhar observador para a criança e para a situação, é fundamental se libertar de análises avaliativas, julgadoras e moralizantes, e de comparações entre os pequenos – o foco é investir na  observação, momento em que todo o contexto será colocado em pauta para dar um encaminhamento respeitoso e compreensivo, e comunicar à criança que o professor é alguém que a conhece e caminha a seu lado. 

Desse modo, numa situação de conflito em que uma criança pequena agride outra, uma atitude imediatista e alienante seria reprimir e fazer juízo de valor do comportamento. Pela comunicação não-violenta, conseguimos mudar de perspectiva, por meio de uma atitude compassiva, capaz de acolher as duas crianças,  refletir sobre o que ocorreu, e oferecer suporte para que aprendam a vivenciar a frustração, a raiva e a tristeza. 

2. Reconhecer o que foi despertado (sentimentos)

Aqui, falamos da riqueza que reside em vivenciar e compartilhar os sentimentos humanos. É essencial que, no dia a dia, o professor se mostre para as crianças nas suas vulnerabilidades – nos momentos de dor, a criança se sentirá acolhida por alguém que ela sabe ser capaz de sentir o mesmo. 

Por exemplo, quando a criança se mostra com raiva, melhor do que falar sobre o quanto é feia aquela sensação, é apoiar para que ela crie estratégias para lidar com ela. É interessante pensar em vivências que auxiliem as crianças a falar melhor sobre seus sentimentos: o ideal é sempre partir do acolhimento, e posteriormente planejar histórias, brincadeiras corporais e momentos de conversa sobre emoções.

Vamos aprender ao ar livre?

Nesse Nova Escola Box, apresentamos aos gestores e professores da Educação Infantil os benefícios e possibilidades da aprendizagem em ambientes externos.


3. Perceber o que falta (necessidades)

Seguindo o raciocínio do tópico anterior, ao compartilhar quais sentimentos foram despertados nas circunstâncias, o caminho fica aberto para identificar o que faltou no momento, e buscar que as necessidades de cada um sejam atendidas. 

Com isso, numa situação que ocorre na escola, ao mapear quais foram os gatilhos para certos sentimentos nas crianças, é possível refazer o percurso de acontecimentos e identificar quais demandas deixaram de ser supridas, ou mesmo quais os suportes que faltaram e que ocasionaram em um conflito. 

4. Deixar expresso o que se quer (pedido)

Tendo reconhecido os sentimentos despertados e as necessidades associadas, é hora de organizar estratégias para que fique claro o que se espera de cada um. Essa comunicação precisa ser direta e eficaz, mas não necessariamente de forma verbalizada, como podemos observar nos dois exemplos a seguir, do cotidiano da Educação Infantil: 

Quando um dos bebês inicia um choro constante: primeiramente, é importante acolher essa forma de expressar necessidades; depois, olha-se para o percurso do dia e busca-se identificar o que esse choro indica (como mal-estar, fome ou sono). A seguir, chega a hora de analisar quais foram os momentos que o bebê teve para relaxar, para pensar então em uma rotina para aquietar o corpo com um contato físico e falas tranquilizantes – posteriormente, é possível pensar em um banho refrescante; em apoiar na sua independência; em organizar um espaço aconchegante da sala para relaxar e adormecer; enfim, muitas iniciativas viáveis para que, aos poucos, o bebê reconheça que aquele espaço é propício para sua necessidade. 

Quando as crianças bem pequenas fazem a chamada “birra”: imaginemos que, no meio da brincadeira, a criança se joga no chão e chora. Uma ação assertiva pautada pela CNV é aquela que, antes de tudo, acolhe e se mostra disponível para apoiar o pequeno a se acalmar; em seguida, de maneira verbalizada, busca-se ajudar a criar o percurso que o levou a tal reação, e também a identificar alguns possíveis sentimentos.


Assim, aos poucos, a criança pode começar a nomear o que sente e a construir estratégias para que, em um outro momento, venha a lidar com a situação da maneira esperada. Veja um exemplo prático de intervenção com pedido: “Vi que você ficou triste porque queria ficar naquele brinquedo, mas estava ocupado. Que tal, na próxima vez, fazermos uma lista dos amigos que querem brincar nele, antes de virmos ao parque? Assim, você vai perceber e saber em que momento o brinquedo estará disponível”. 

Caros professores e professoras, depois de abordar de maneira muito breve essas estratégias, gostaria de finalizar essa reflexão destacando que, por meio da comunicação não-violenta, é possível criar maior consciência sobre contribuir para o desenvolvimento de melhores relações, capazes de promover boas interações numa perspectiva empática, compreensiva, responsiva e horizontal. 

Um abraço e até breve!
 

Paula Sestari é professora de Educação Infantil da rede municipal de ensino de Joinville (SC), com 10 anos de experiência nessa etapa, e mestre em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, e foi eleita Educadora do Ano com um projeto na área de Educação Ambiental com a faixa etária das crianças pequenas.

continuar lendo