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Jornalismo

Educação Infantil: como um bom planejamento pode garantir os direitos de aprendizagem das crianças?

Especialistas dão dicas para criar contextos, experiências e interações em que os pequenos estejam no centro da proposta pedagógica

PorDimítria Coutinho

09/03/2022

Foto: Acervo pessoal/Vanice Brunelli Zanelato

Massinha, cola colorida, pincéis, canudos e gravetos foram o suficiente para que as crianças da Escola Municipal de Educação Infantil Vovó Helena Sossai, em Venda Nova do Imigrante (ES), construíssem um vulcão de brinquedo. Interessados em conhecer melhor o fenômeno, os pequenos puderam explorar, em atividades posteriores, ambientes com argila, projeção de imagens e livros informativos. Tudo isso só foi possível porque a professora Vanice Brunelli Zanelato privilegiou o planejamento e se dispôs a ajustá-lo conforme a necessidade, para que as crianças pudessem experimentar diferentes contextos pelos quais demonstraram interesse. 

Vanice conta que, antes de organizar uma vivência, planeja os materiais e espaços que vai utilizar para conseguir alcançar determinado objetivo. Além disso, ela considera “o currículo que emerge das crianças”, ou seja, os interesses e conhecimentos que os pequenos demonstram para ela. “A partir disso, eu replanejo minhas propostas”, acrescenta. 

Karina Rizek, coordenadora pedagógica da Global Me e consultora associada da Avante Educação e Mobilização Social, afirma que, para criar um contexto educativo de qualidade para as crianças, é fundamental queo planejamento contemple uma proposta pedagógica, os direitos de aprendizagem e desenvolvimento e o trabalho com os campos de experiência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

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Essa etapa essencial do processo permite que os professores tenham a chamada intencionalidade pedagógica, ou seja, pensem quais objetivos querem atingir e qual caminho devem percorrer para tanto. Isso passa por planejar os espaços, os materiais, as intervenções e até os recursos que serão usados para registrar os resultados. 

Criança como protagonista 
Karina defende que o aspecto mais importante para ser levado em consideração pelo professor da Educação Infantil na hora do planejamento é o entendimento de que a aprendizagem das crianças acontece por meio de experiências. A BNCC traz uma visão de que os pequenos devem ser protagonistas do próprio aprendizado, e esse elemento precisa estar presente no planejamento. 

A aprendizagem se dá pela experiência, e essa experiência é de cada um. Claro que ela também é do professor, mas é fundamentalmente das crianças. Então, precisa aparecer no planejamento a heterogeneidade da turma, considerando que, em uma mesma proposta, as crianças podem estar envolvidas de diferentes formas”, ressalta a especialista. “À medida que eu conheço as crianças, observo, registro e entendo quais são os interesses daquele grupo, eu consigo me planejar melhor.” 

Para Nilcileni Brambilla, formadora de professores da NOVA ESCOLA, ter as crianças no centro do aprendizado torna o planejamento ainda mais importante. Isso porque, no momento da atividade, o ideal é que o professor intervenha o mínimo possível, permitindo que as crianças guiem a si mesmas no processo de aprendizagem. Para atingir os objetivos e garantir os direitos dos pequenos, portanto, os professores precisam criar contextos muito bem planejados para estimular as crianças. 

“Essa ideia de a criança ser o centro vem de um entendimento de que ela é capaz de aprender de acordo com o interesse dela e com a intenção do professor”, comenta. Ela explica que o professor, ao organizar um espaço de aprendizagem que permita o avanço nos processos ou nas curiosidades que as crianças têm sobre um determinado assunto, já está intervindo no processo de aprendizagem. “O que precisamos focar no planejamento é como organizamos espaço e materiais para garantir os objetivos de aprendizagem, de modo que cada vez menos o papel do professor durante a atividade seja tão necessário.”

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Karina considera essencial que os professores mudem a mentalidade de se comportarem como alguém que dá aulas e passem a ser alguém que cria condições para que as crianças aprendam vivendo. “O currículo da Educação Infantil é a vida cotidiana. É muito mais relevante estimular as conversas das próprias crianças, como levantar hipóteses sobre uma formiguinha que está andando no chão –, para onde será que ela vai, se ela pica, tem família e onde estão as amigas dela – do que de fato estudar quantas patas a formiga tem”, exemplifica. 

Planejar também é garantir direitos e experiências

A BNCC baseia o trabalho pedagógico na Educação Infantil em cinco campos de experiência e na garantia dos seis direitos de aprendizagem: conviver, brincar, participar, explorar, se expressar e se conhecer. Segundo Nilcileni, na hora de planejar as atividades, é essencial que os professores pensem em oportunizar situações nas quais as crianças possam ter esses direitos garantidos. 

Não à toa todos os direitos são verbos, o que reforça a ideia de que o aprendizado das crianças se dá a partir de experiências, de como elas estão vivenciando determinado assunto ou interesse. Nessa perspectiva, os cinco campos de experiência guiam o planejamento dos professores no sentido de diversificar esses contextos, de forma que as crianças possam experimentar todos os campos: o eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; e espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. 

De acordo com ela, é essencial que os professores não enxerguem os direitos e os campos como itens fragmentados dentro do planejamento. Em uma atividade de dança, por exemplo, as crianças não vão apenas brincar com sons ou explorar movimentos (característicos dos campos corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas), elas estão imersas em contextos da relação com o outro, da brincadeira, da escuta, da fala, etc. Em um mesmo contexto, vários direitos estarão sendo garantidos e diversos campos serão explorados, sempre com a intenção de incentivar o protagonismo das crianças e proporcionar experiências diversificadas e significativas.

Planejamento do contexto como ponto de partida 

Com objetivos claros em mente, a ideia é que o professor crie contextos nos quais as crianças vão poder experimentar e aprender. E é justamente por isso que organizar espaços e materiais é uma das partes mais importantes do planejamento docente na Educação Infantil. 

“A minha intervenção inicia antes da proposta em si, na organização do ambiente e dos materiais, com a forma como organizo e penso o contexto”, ressalta Vanice. “Eu penso em como as crianças podem atuar da forma mais autônoma possível. Assim, não preciso dar as coordenadas, mas o próprio material, a própria organização do ambiente acolhe as crianças e as ajuda a se expressarem.” Para a professora, esse planejamento vai garantir que os objetivos sejam cumpridos e que o protagonismo dos pequenos seja incentivado.


Nilcileni diz que é essencial que os professores se planejem pensando como as crianças explorariam os materiais, sobretudo se os espaços e materiais da escola forem limitados. “Às vezes, não percebemos a infinidade de possibilidades que tem um espaço ou um tipo de material”, comenta. “A principal dica é se colocar no lugar da criança, pensar em como aproveitar todos os espaços como ambientes de aprendizagem e diversificar os materiais para ampliar o repertório cultural delas, porque as crianças têm um olhar diferenciado do nosso, de adultos.” 

Karina recomenda que os professores coloquem todos esses elementos na ponta do lápis. Isso significa listar os materiais que serão utilizados, como eles aparecerão em cada momento, em qual espaço a atividade será realizada e de que forma ela estará organizada. 

Foco nos interesses das crianças e na diversidade 

Ao realizar o planejamento, também é fundamental que os professores levem em conta as áreas de interesse das crianças. No exemplo dado no início da reportagem, Vanice percebeu o gosto dos pequenos pelo tema dos vulcões e aproveitou esse interesse para proporcionar as mais diversas experiências, que foram desde expressões artísticas com argila até observação de imagens e exploração de livros. 

“Na minha prática, estou exercitando muito essa escuta ativa daquilo que as crianças trazem não só em falas, mas também em ações. Elas vêm comunicando muito para mim e inspirando muito o planejamento. Nós ouvimos o que eles trazem de interesses e ideias e transformamos isso em ações e experiências no cotidiano”, destaca a professora. 

Ela lembra que também é importante considerar a diversidade da turma e planejar contextos paralelos, já que é o interesse de cada criança que vai guiar o seu aprendizado. “Se a criança não demonstra interesse por um contexto, sempre tem outra opção.”

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Intervir menos, observar mais e registrar
 
Após organizar espaços e materiais, é hora de os professores deixarem os pequenos experimentarem, agirem e aprenderem, apoiando suas interações, observando as experiências e ficando a postos, caso precisem de ajuda. 

“As interações são das crianças com os espaços, com os materiais, entre elas, consigo mesmas e com os adultos. As crianças é que vão conduzir esse processo, a gente não precisa interferir”, pontua Karina Rizek. “Quando interferimos, trazemos uma visão do adulto que às vezes está muito distante da visão da criança e interrompemos uma ação de continuidade. A ideia é sair de cena e se colocar no papel de observador. É observar sempre mais para entender como as crianças aprendem, como elas estão conduzindo seu dia a dia.”


As observações feitas pelo professor vão gerar registros que, mais para frente, servirão para um replanejamento. Nilcileni salienta que o docente precisa estar atento a como as crianças atuam nas brincadeiras, com outras crianças e com os materiais e espaços. Também deve observar as narrativas dos pequenos, perceber o que eles estão comunicando, como estão se sentindo e quais impressões estão tendo da vivência. 

A especialista afirma que também é muito importante que o professor tenha um “afinamento do olhar”, ou seja, saiba em quais aspectos ele deve prestar atenção, aqueles que se relacionam com o objetivo de aprendizagem da atividade. “Se eu tenho como objetivo que as crianças se comuniquem, eu vou observar o que elas estão comunicando, como estão interagindo, se estão tendo espaço de fala e se estão prestando atenção no que o outro diz”, exemplifica. 

Abertura para o replanejamento 

Posteriormente, de acordo com Nilcileni, é essencial resgatar os registros para ver até que ponto os objetivos foram atingidos, quais são os desafios que ainda terão de ser oferecidos para as crianças continuarem aprendendo e se elas demonstraram outros interesses. Assim, o professor vai utilizando os registros para fazer girar essa roda e ajudar as crianças nesse aprendizado contínuo. 

Vanice conta que filma e fotografa as atividades, além de escrever diálogos interessantes que ouve das crianças. Depois, ela revisita esses registros para entender como pode dar continuidade ao seu planejamento.

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Karina argumenta que, sem os registros, é impossível garantir a intencionalidade pedagógica. “Eu preciso observar, registrar e documentar para conhecer o meu grupo, refletir sobre ele e fazer análises e reflexões. Eu devo entender se aquilo que eu estou planejando e propondo está garantindo o protagonismo das crianças, a aprendizagem por experiência, o equilíbrio entre os campos e os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento. Tudo isso para que eu possa, inclusive, replanejar.” 

A especialista alerta ainda para a importância de se desapegar do próprio planejamento, entendendo que tudo é um processo. “Muitas vezes, o professor acha que, porque planejou, ele tem de realizar, afinal deu muito trabalho. Mas não adianta insistir em algo que está na contramão dos princípios educativos e do que as crianças querem. Muitas vezes, a gente tem uma ideia incrível, separa um material maravilhoso e as crianças estão interessadas em outra coisa”, destaca. “Eu acho que o bonito desse processo é a gente abrir mão do que pensou, do que quer e deseja, e olhar mais para as crianças. Todos os dias, as crianças nos ensinam a ser professores.”

Consultoria pedagógica: Nilcileni Brambilla, professora e formadora no Time de Formadores da NOVA ESCOLA.

Esta reportagem faz parte do Especial Planejamento. Confira aqui os demais conteúdos

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