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Jornalismo

Educação infantil: os desafios e os caminhos para 2022

Especialistas e educadoras compartilham qual será o foco do trabalho com os pequenos e estratégias para superar as dificuldades

PorPaula Salas

15/02/2022

Crédito: Getty Images

A nova fase da pandemia pegou Denise de Oliveira, professora de crianças pequenas na Escola Municipal de Educação Infantil Érico Veríssimo, em Porto Alegre (RS), de surpresa. No final de 2021, ela e suas colegas haviam planejado um retorno 100% presencial, organizaram as salas e definiram as primeiras atividades com os pequenos. No entanto, com o aumento dos contágios em janeiro, a retomada foi escalonada e optativa. “Não queremos que as crianças fiquem em casa, mas é bem difícil manter esse distanciamento na escola. Como vamos recebê-las com uma alta taxa de transmissão da covid-19?", questiona a professora. 

Com essa mudança, ela e muitas outras educadoras terão de repensar como acolher e planejar a rotina dos pequenos. Denise conta, por exemplo, que havia a expectativa de poder ampliar o leque de brincadeiras e materiais utilizados. Porém, devem voltar a organizar kits individuais para evitar o compartilhamento e as trocas entre as crianças.


Para os gestores escolares, esse cenário, aliado ao conjunto de desafios que já estavam previstos, traz uma demanda urgente: garantir o apoio à equipe docente. “Mais uma vez nos deparamos com professores que estão preocupados com o retorno. Por isso, temos de pensar como as escolas e redes irão acolher, cuidar e apoiar esses educadores”, destaca Elaine Lindolfo, formadora de professores na Elos Educacional, em Santo André (SP), e com mais de 30 anos de experiência na Educação Pública. 

Nesse contexto, NOVA ESCOLA conversou com professoras e especialistas para entender quais são os desafios para este ano e apontar caminhos para o trabalho docente em 2022. Confira, a seguir, os principais tópicos. 

As incertezas da pandemia e a continuidade do trabalho

De acordo com todas as educadoras, o fato de ainda vivermos uma pandemia e a maioria dos pequenos não estarem vacinados é o maior desafio para este ano. Priscila de Freitas, diretora do Centro Municipal de Educação Infantil Contos de Fada, em Palmas (TO), fala da possibilidade de, durante o ano, professores e crianças precisarem ser afastados por manifestar algum sintoma. Com isso, manter a continuidade do trabalho poderá ser uma dificuldade. 

Para não serem pegos de surpresa, a escola já está planejando o que fará se isso acontecer. “Estamos pensando em montar um banco de vídeos para enviar para as crianças que estiverem em casa e fazer videochamadas uma vez por semana, mas ainda estamos avaliando em equipe", conta a gestora. 

Na rotina, a orientação é, na medida do possível, seguir normalmente com as atividades. “Mantendo todos os cuidados de distanciamento e usando a área externa da escola e brinquedos que permitem a higienização”, pontua. 

“Temos de ter esperança e coragem para enfrentar [o contexto atual]. Manter toda a segurança possível para que os pequenos possam se desenvolver”, afirma Márcia Maria de Oliveira, professora de berçário na Creche Baroneza de Limeira, em São Paulo (SP).

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Como lidar com os protocolos com os pequenos

Para crianças de até 5 anos, o uso de máscara não é obrigatório. No caso da escola de Priscila, os pequenos de 4 e 5 anos já estão acostumados a fazer uso. Já no grupo de 2 e 3 anos está sendo feito um trabalho de incentivo – antes dessa idade, o uso não é indicado. 

Depois de dois anos de pandemia, todos sabem que é fundamental manter uma higienização regular das mãos. Na Educação Infantil, é possível tornar esses momentos uma atividade lúdica. Elaine sugere que cada criança possa levar um brinquedo e lavá-lo enquanto faz a própria higiene. 

Além disso, a recomendação de priorizar atividades em lugares abertos pode ser incluída na rotina dos pequenos. Mesmo com a turma de bebês, a professora Márcia diz que é possível pensar em atividades ao ar livre com o apoio da equipe. “Preparamos o espaço para receber os pequenos e depois os levamos para lá. É bem tranquilo.”

Preparando espaços convidativos e seguros

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Acolhimento e adaptação das crianças

Pensar no acolhimento e na adaptação dos pequenos é fundamental no início do ano. “Todos os anos receber as crianças é algo novo. Toda a rotina muda”, resume Márcia. 

Para Fernanda Arantes, especialista em psicologia escolar e professora no Instituto Singularidades, em São Paulo (SP), o principal desafio é ter esse olhar, pensar em como reconstruir os vínculos de confiança para que os pequenos se sintam seguros e parte daquele espaço. Para fazer esse trabalho, ela sugere organizar cantinhos variados e acolhedores. “Pensar em cantos que convidem para uma leitura ou gerem interação entre as crianças.” 

Na turma da professora Márcia, o período de adaptação é especialmente importante, pois ela recebe bebês a partir dos 4 meses. Durante o primeiro mês, a educadora foca em músicas e na contação de histórias para acalmar os bebês. "Eles demoram mais para se adaptar, é tudo muito novo. Estão muito ligados aos pais e entrando em um mundo diferente", explica. 

Com a pandemia, as famílias não estão participando das atividades dos primeiros dias. Márcia conta que esperam o fim do período de adaptação para dar início a novas propostas. Ela destaca que, nas primeiras idas aos ambientes externos da escola, os pequenos também passam por um processo de ajuste, pois qualquer mudança já faz diferença para os menores.

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Conheça os benefícios e possibilidades da aprendizagem em ambientes externos, que devem ser priorizados neste momento de retomada das atividades presenciais.


Foco do trabalho pedagógico em 2022

“Minha dica é sempre ter abertura ao novo. O cotidiano da Educação Infantil é muito dinâmico. Tem de apurar o olhar para considerar as diferentes demandas, olhar para a cada criança e família para organizar experiências significativas”, destaca Elaine. 

Para Fernanda, o trabalho deve ser orientado pelos seis direitos de aprendizagem previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Garantir que aprendam a brincar, que possam participar de diferentes propostas e experimentar diferentes materiais para se conhecerem e construírem a própria identidade”, diz. Além das propostas de brincadeiras, a própria rotina de higiene e alimentação são momentos privilegiados para garantir esses direitos. “[O professor deve] olhar para o planejamento e identificar os direitos que estão presentes de alguma forma em cada atividade”, complementa a especialista do Instituto Singularidades. 

Nessa linha, Elaine entende que pensar em uma rotina estruturada e ofertar brincadeiras que favoreçam a interação — algo que fez muita falta durante o trabalho remoto — são bons caminhos para a Educação Infantil. “Pensar nessas relações, no autoconhecimento, no desenvolvimento da linguagem. Investir na ludicidade e experiências de brincadeiras variadas, livres, simbólicas, em grupo, individuais e em espaços variados”, exemplifica. 

Podemos falar de recomposição de aprendizagens na Educação Infantil?

Não, pois não há defasagem entre os pequenos. Entenda mais 

A recomposição de aprendizagens, que será central no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, não se aplica para a realidade da Educação Infantil. “Desde que são bebês, os pequenos estão em processo de experiência. O foco do professor é mediar e planejar esses momentos. Existem objetivos de desenvolvimento e aprendizagem, mas não há uma defasagem [a ser suprida nessa retomada presencial]”, explica Elaine. 

Segundo Fernanda, é necessário valorizar o desenvolvimento durante o período que as crianças estiveram longe da escola. “Não foi um tempo perdido. As crianças tiveram outras aprendizagens e todas são importantes. Tem de aprender a incorporar essas experiências na escola”, aponta. “Um jeito de poder retomar esse trabalho é acolher a diversidade de experiências. Escutar o que fizeram e aprenderam e poder compartilhar isso com os colegas”, completa.

Planejamento das atividades e rotina das crianças

Observar, ouvir e acolher são três palavras fundamentais para o planejamento contínuo da Educação Infantil. Para a professora Denise, conhecer as famílias é um ponto essencial para o planejamento do professor. Afinal, ninguém melhor do que os responsáveis para saber do que a criança gosta ou não. Também é importante, no caso das crianças mais velhas, ouvir o que elas têm a dizer sobre suas preferências e experiências. “Vamos ouvi-los e ter o espaço da brincadeira para expressar sentimentos, aspirações e desejos”, salienta Elaine. 

Nas primeiras semanas da volta à escola deve ser feito um diagnóstico das crianças. “Vamos ter de entender as maiores dificuldades, verificar como está o processo de desenvolvimento de cada uma para saber de onde partir”, diz Denise. 

Elaine reforça que a escuta ativa e a observação atenta das crianças serão fundamentais para orientar o planejamento do professor durante todo o ano. Identificar os comportamentos e respostas de cada criança para as propostas, em parceria com as famílias, ajudará o professor a fazer esse diagnóstico.

Como fazer a escuta das crianças

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Socialização e interação com os colegas

Durante o período longe da escola, os pequenos tiveram interações restritas ao núcleo familiar. Aqueles que são filhos únicos, por exemplo, podem ter tido contato apenas com adultos. 

O impacto disso foi observado na escola de Denise. Elas perceberam que crianças que estavam no berçário e hoje têm 3 ou 4 anos estão com dificuldade de interagir e brincar. “Deixaram de brincar para ficar no celular ou assistir televisão e não sabem fazer outra coisa.” 

Por isso, é essencial que o educador esteja atento às interações entre as crianças para entender o tipo de proposta que deve priorizar. “O olhar atento do professor para a socialização é fundamental.”

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Tempo de tela e uso de tecnologia

Apesar do receio, esse não tem sido um grande desafio na escola de Priscila. “Temos apenas alguns casos específicos. Por exemplo, quando a professora tira uma foto, as crianças pedem para usar o celular. No período de adaptação choram e também pedem [o aparelho]”, relata. No entanto, são questões pontuais, e a própria rotina já consegue reverter a situação. “Explicamos que na escola não assistimos desenhos, que é para brincar e conversar com os colegas”, destaca Denise. 

Para Elaine, a retomada presencial e a priorização de experiências offline não significam deixar para trás todo o trabalho e aprendizado que o uso de recursos digitais trouxe para a Educação Infantil. "É possível pensar em um meio termo, em tempos curtos de uso. Sempre observando e ajustando o que funciona para cada grupo", afirma a formadora. A professora Paula Sestari compartilhou 5 sugestões de como fazer boas propostas utilizando a tecnologia na Educação Infantil.

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Apoio às famílias

Os impactos emocionais e socioeconômicos da pandemia são inegáveis e não podem ser ignorados. Com essa percepção, Priscila conta que as professoras levaram essa preocupação para o planejamento e foi definido que, em 2022, o projeto institucional da escola e os temas que guiarão todas as atividades serão os sentimentos e as emoções. “Pretendemos desenvolver experiências pautadas nas brincadeiras, contação de histórias, nas cantigas e na cultura popular. Todas com [a temática] como pano de fundo”, explica a gestora. 

“A escuta de toda a escola é sempre importante. É ter os canais abertos para que possa acontecer essa troca de apoio entre as famílias”, diz Fernanda. A partir das necessidades das famílias, é possível pensar em qual apoio é mais urgente. 

Considerando isso, Elaine sugere enviar um questionário para os responsáveis para mapear o perfil e entender as demandas  da comunidade. “Discutimos o olhar para as crianças de forma integral, então as peculiaridades [de cada família] devem ser levadas em conta. Mais do que nunca, esse diagnóstico socioeconômico deve ser feito para orientar o planejamento.”

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