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Jornalismo

Volta às aulas: como preparar a acolhida na alfabetização?

Confira sugestões de propostas que vão auxiliar na construção de um verdadeiro “retrato da turma”, elemento importante para nortear os trabalhos ao longo de todo o ano

PorMara Mansani

31/01/2022

Crédito: Getty Images

Para todo período letivo que se inicia, planejo uma acolhida especial para receber minha turma de alfabetização, e não seria diferente agora em 2022. Esse processo envolve a decoração da sala de aula, os combinados da turma, e a elaboração de atividades que proporcionem interações e que também levem a reflexões sobre a coletividade e colaboração.

Visando dar conta dessas questões, geralmente escolho um tema. Lembro que uma vez já preparei tudo com a temática “Uma grande viagem ao conhecimento”: nela, as crianças eram “os marinheiros dos mares da aprendizagem”, e aproveitei para explorar elementos relacionados ao mar – mas podemos explorar qualquer tema que seja significativo às crianças, e que traga a mensagem de que estamos todos juntos nessa jornada.

Só que, para além de ações desse tipo, gostaria de começar essa coluna propondo mais algumas práticas que vão nos ajudar a consolidar essa acolhida. São iniciativas que vão contribuir no registro de identidade desses estudantes, auxiliando-nos no momento de construir o “retrato da turma”.

Assim, temos a oportunidade de conhecer e mesmo compreender melhor esses alunos que chegam agora até nós no ciclo da alfabetização, possibilitando uma visão geral que será muito útil para os nossos trabalhos ao longo deste ano. A seguir, separei algumas sugestões para esse momento tão importante na volta às aulas.

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Livro dos nomes

Uma ideia interessante é, logo na primeira semana, propor a construção coletiva de um livro dos nomes da turma. Trata-se de uma atividade que envolverá a família dos estudantes, que deve responder uma pesquisa/entrevista sobre a origem e motivo de escolha do nome da criança, com perguntas do tipo: “Quem escolheu?”; “De onde veio a inspiração para a escolha?”; “Qual o significado do nome?”; e outras possibilidades nessa linha. Com isso, cada família deve receber em casa uma folha impressa com a pesquisa, que depois de respondida, vai compor o livro, junto com desenhos e fotos das crianças.

É importante ressaltar que essa proposta vai além do registro escrito sobre os nomes. Tudo porque, em sala de aula, além das leituras de cada entrevista, as crianças vão compartilhar oralmente as suas histórias para toda a turma.

Outro ponto que valeu sublinhar é que, todas as vezes que proponho essa atividade sobre a origem dos nomes, as crianças fazem descobertas e são surpreendidas com a história de sua própria família. Então, além de proporcionar momentos lindos e emocionantes, a elaboração do livro dos nomes contribui no diálogo entre as crianças e suas famílias, algo tão importante para o desenvolvimento dos pequenos.

Composição de nomes próprios utilizando diferentes materiais

Ainda dentro dessa temática dos nomes próprios, a proposta a seguir envolve a composição dos nomes dos pequenos usando materiais diversos, que podem ser tampinhas plásticas, elementos naturais (como folhas e sementes) ou brinquedos (peças de blocos de encaixe e outros).

Para isso, as crianças recebem previamente uma folha com seu nome escrito na horizontal, ou uma folha em branco para que o escrevam dessa forma. Em seguida, elas fazem o preenchimento em cima de cada letra. A ideia dessa atividade é complementar a do livro dos nomes, explorando mais uma vez as questões que nos tornam únicos, como o nosso nome e a história de cada um.

Uma variação para essa atividade é propor a composição do nome explorando cada letra, e usando para isso objetos do dia a dia das famílias. Funciona assim: tomando como exemplo o meu nome, MARA, a ideia é escrever essas quatro letras na horizontal, e abaixo de cada uma, vai um objeto cujo nome se inicia com a mesma letra. Assim, a letra “M” pode ser acompanhada de uma meia, a letra “A”, de um anel, e assim por diante. Essa atividade pode ser feita em casa, e posteriormente registrada em foto e enviada via WhatsApp. Confira aqui o link de onde me inspirei para essa atividade, no perfil do Instagram da rede municipal de Jacareí (SP).

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Roda de conversa

Esse é mais um ponto que não pode faltar na volta às aulas. Para começar, a dica é realizar a leitura de um livro que explore a vida de crianças de várias partes do mundo, analisando as diferenças culturais e de etnia, as características físicas, entre outros dados, salientando a importância do respeito entre todos. Uma sugestão é a obra Crianças Como Você, de Anabel Kindersley e Barnabas Kindersley.

Depois disso, uma proposta interessante é, ali na própria roda, sugerir uma atividade de apresentação, mas ao invés de falarem de si próprias, as crianças devem apresentar o colega ao lado. Então, para conseguir realizar isso, eles devem fazer um breve bate-papo para descobrir quatro informações sobre o outro: nome do colega; idade; brinquedo ou brincadeira favorita; e comida preferida.

Além de divertida, essa iniciativa vai promover uma boa interação entre as crianças, e para complementar, os pequenos podem também desenhar o colega. Contando assim, pode até parecer uma atividade simples de se fazer, mas na verdade, há toda uma complexidade envolvida, que demanda observação e ainda o ato de ouvir o outro, algo que nem sempre acontece nos dias de hoje – e que consiste na base para a construção de bons relacionamentos visando uma sociedade com pessoas mais compreensivas.

Painel com o “retrato da turma”

Por fim, outra estratégia interessante para unir as informações sobre cada aluno é construir um painel coletivo para compor o “retrato da turma”. Nele, podem ser fixados os nomes produzidos com os diferentes materiais que descrevi no segundo tópico, e ainda fotos, desenhos e mesmo a palma da mão de cada um, registrada com o uso de tinta (a famosa “mão carimbada no papel”).

A proposta também inclui registrar no painel uma intenção ou meta da turma. Por exemplo: “nós, alunos do 1º ano D, faremos tudo para a felicidade de todos!”; ou “que a felicidade e a cooperação entre todos estejam sempre em nossa sala”, ou qualquer frase nessa linha. Para isso, a ideia é deixar que todos deem suas sugestões e que, juntos, escolham a sua mensagem para o ano letivo que está por vir. Como recordação desse momento especial, e de certa forma como uma maneira para consolidar esse “tratado estabelecido”, uma boa dica é entregar a cada aluno o registro fotográfico desse painel – eu mesma vou fazer isso!


Aliás, todas essas atividades serão desenvolvidas na minha primeira semana de aula, mas asseguro que elas podem e devem ser revisitadas ao longo de todo o ano; afinal, os nomes próprios são a base para se explorar a alfabetização – sem contar a importância que eles possuem na construção da identidade pessoal e no desenvolvimento integral de nossas crianças.

Mas e quanto a vocês, queridos colegas alfabetizadores e alfabetizadoras? O que pretendem fazer na primeira semana de aulas? O que acharam das propostas apresentadas aqui? Se tiverem mais algumas sugestões nesse sentido, sintam-se à vontade para contar nos comentários.

Desejo a vocês um excelente ano letivo, seguindo os protocolos sanitários, e com a tarefa de trazer todos à escola e de promover a aprendizagem!

Um abraço,

Mara Mansani 

Mara Mansani é professora há 34 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga. 

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