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Jornalismo

Volta às aulas: acolher os professores é essencial para a retomada

Diálogo e escuta ativa serão fundamentais para apoiar a equipe escolar depois de quase dois anos de pandemia

PorPaula Salas

26/01/2022

Crédito: Getty Images

Para acolher é preciso, primeiramente, estar bem e ter sido acolhido. Isso pode parecer óbvio, mas ainda não é algo que acontece na prática em diversas situações, inclusive no contexto escolar. As ansiedades, as inseguranças e os medos do biênio pandêmico (2020-2021) deixaram consequências não apenas nas aprendizagens, mas também no emocional de toda a comunidade escolar. A Covid-19 foi muito dura com os professores, que viveram tanto os impactos da pandemia nas suas vidas pessoais, como foram desafiados profissionalmente a se adaptar ao ensino remoto. Toda essa carga emocional não pode ser ignorada.

“Não adianta cobrar algo de um profissional que não está bem, por isso é fundamental trabalhar o emocional e acolher o professor com carinho e atenção para que ele dê o seu melhor”, afirma Bruna Santos da Silva, diretora da Escola de Educação Infantil e Fundamental Francisco Nemesio Cordeiro, em Tianguá (CE).

Assim, no início de 2022, antes de pensar no planejamento pedagógico e no acolhimento dos alunos, é preciso olhar para o bem-estar dos professores.

“Eles deram um show, se reinventaram. Não foi e nem está sendo fácil, mas eles são vitoriosos. Por isso, este começo de ano precisa ser um incentivo [para motivar a equipe]”, resume Cynthia Feliz, coordenadora pedagógica da Escola Estadual Professor Suetônio Bittencourt Jr., em Santos (SP).

Os quatro principais desafios da Educação no início de 2022

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Construindo um ambiente acolhedor
O acolhimento também envolve tranquilizar os professores a fim de que não se sintam sozinhos para dar conta da recomposição das aprendizagens — ou de qualquer outra demanda pedagógica. Toda a escola deve estar unida e promover o apoio de uns aos outros nesse processo.

Esse tipo de prática deve, ainda, fazer parte da rotina escolar ao longo do ano. “Deve ser uma diretriz, e não uma ação pontual”, explica Silvia Breim, coordenadora de conteúdo e formadora da plataforma Vivescer, iniciativa do Instituto Península, que desenvolveu um material com orientações para acolhimento dos educadores. Nesse aspecto, entra o papel da equipe gestora de garantir momentos da rotina dedicados à escuta e ao diálogo.

Além de ser uma ação regular, é preciso garantir condições que propiciem a empatia e a externalização das vulnerabilidades. “Para falar como se sente, o professor precisa ter um espaço que favoreça o diálogo”, diz Angela Luiz Lopes, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa CEDAC. A instituição deve ser vista como um lugar seguro não apenas para expressar as emoções, mas também em relação ao cumprimento dos protocolos de biossegurança — considerando que ainda vivemos uma pandemia. Essa discussão deve ser realizada para entender as inseguranças dos educadores e pensar em como apoiá-los para sanar esses receios.

Por onde começar?
Especialista aponta que o primeiro passo é fazer um diagnóstico dos professores

Tornar a escola um ambiente acolhedor é um processo que requer tempo e consistência, e demanda abertura e participação para se efetivar. Os resultados, no entanto, fazem valer a pena o esforço.

Para iniciar o acolhimento, Sílvia Breim sugere fazer um diagnóstico da equipe. “[É preciso] entender como está esse professor que retorna para traçar ações estratégicas.” Antes mesmo de uma conversa presencial, é possível começar esse mapeamento com uma pesquisa online. “Se o gestor percebe que, dentro do grupo há muitas questões de saúde mental, é possível fazer uma parceria com um psicólogo”, exemplifica a especialista do Vivescer.

No processo de diagnóstico, Silvia recomenda que os educadores identifiquem os desafios para depois pensar em três tipos de ações: aquelas que podem ser feitas pela equipe docente e gestora; as que precisam da ajuda de pessoas próximas, por exemplo, envolvendo a comunidade escolar; e aquelas que necessitam de um apoio maior, por exemplo, que precisam envolver a secretaria. “É um exercício interessante, pois permite traçar caminhos, dar voz à equipe e engajar todo o grupo a ser corresponsável.”

Um ponto fundamental é a escuta atenta da realidade de cada professor para acolher as diferentes vivências. Nesse trabalho, as rodas de conversas são uma dinâmica clássica que funciona. “[É necessário] estabelecer esse espaço como um lugar seguro, em que as pessoas possam ouvir e ser ouvidas. Sair do julgamento e construir junto”, aponta Silvia.

Acolhimento no início e durante todo o ano
Na EE Professor Suetônio Bittencourt Jr., existe um projeto permanente de formação de professores que busca o desenvolvimento das competências socioemocionais da equipe docente. Esse trabalho é realizado a partir de dinâmicas com vídeos e leituras selecionadas.

A coordenadora pedagógica Cynthia conta que a gestão fica à disposição dos professores — e realmente é procurada. “Mantemos horários para conversar, pensar projetos [e a prática docente] e alinhar e compartilhar ideias”. Ela diz que esses momentos também são utilizados para pensar o projeto de vida de cada educador. “Pelo menos uma vez por semestre, temos esse momento de estabelecer metas pessoais para o professor e checar como ele está”, complementa.

Especial Competências Socioemocionais

NOVA ESCOLA produziu conteúdos especiais para auxiliar professores e gestores a usar as competências a favor da aprendizagem e bem-estar

Esse olhar cuidadoso para os professores, durante todo o ano, também orienta o trabalho na EEIF Francisco Nemesio Cordeiro. “Por ser uma escola de zona rural, os professores viajam para chegar até ela. Se ele faz esse sacrifício, a gestão precisa recebê-lo bem”, conclui a diretora Bruna. “Eu quero garantir um bom ambiente e dar as condições [e suporte] de trabalho. Por exemplo, eu nunca imponho o que os professores devem fazer, sempre pergunto. Esse diálogo e a forma de falar são caminhos para manter um bom clima na escola.”

Para o início deste ano letivo, está prevista uma tarde descontraída. “Teremos um café da tarde com música, algumas brincadeiras e um momento para conversar e refletir”, explica. Entre as brincadeiras, ela destaca uma envolvendo balões. Cada professor terá a missão de não deixar o seu cair. Quem derrubar sai da brincadeira, e um colega tem que cuidar da bexiga de quem foi eliminado. “Tem um momento em que uma pessoa vai ficar com todos os balões e não vai dar conta”, antecipa. A ideia é utilizar a atividade lúdica para mostrar a importância do trabalho em equipe e a necessidade de ter esse apoio do coletivo.

O acolhimento e a semana pedagógica da escola terão o tema “reinventar, repensar e replanejar”. No primeiro dia, a gestora escolheu materiais que propiciam uma reflexão dentro dessa temática. “O que não pode deixar de ser dito é que estamos aqui para ajudá-los. Somos uma equipe que caminha junto. A gestão escolar estará fazendo o seu melhor para ajudar no que eles precisarem.”

Recepção dos professores com alegria e descontração
Na Escola Municipal São José, em Anápolis (GO), o acolhimento também terá uma temática que guiará as reflexões: “cada um tem seu brilho, e que ele possa iluminar os demais”. Haverá uma brincadeira com cartões com diferentes tipos de luzes, e cada educador escolherá a sua. “Depois, cada um vai falar sobre o que escolheu e refletir sobre a importância de respeitar a diversidade de brilhos. É algo simples, para que todos possam participar”, compartilha a coordenadora-geral Ellen Divina. Esse momento de conversa e escuta contará com a participação de uma psicóloga convidada.

Ellen ressalta que é fundamental garantir no início do ano um momento coletivo com a equipe para analisar e levantar ações que atendam às demandas. “[O acolhimento] deve motivar os professores a estarem juntos e mostrar que a escola também é deles. Faremos uma recepção alegre, com a energia que queremos trabalhar durante todo o ano.”

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Saiba como os gestores podem se planejar para dar conta do acolhimento emocional; a busca ativa; a organização para um retorno seguro, com todos os protocolos de higiene e saúde, e a garantia da aprendizagem.

Já na Escola Municipal Itaubal, em Tartarugalzinho (AP), o acolhimento dos professores será realizado a partir da exibição de um vídeo de sensibilização. “Estamos montando um vídeo com depoimentos das crianças, com suas expectativas sobre a sala aula e os professores”, conta Jeane Gurjão, diretora da instituição.

Essa apresentação servirá para introduzir uma reflexão e trocas de percepções sobre a importância do trabalho docente, o que deu certo no ano anterior e o que fazer para oferecer o melhor aos estudantes.

Além disso, haverá uma dinâmica para estimular a colaboração entre os professores. A diretora também está planejando um momento de descontração com a exibição de outro vídeo dos alunos. “Fazer uma paródia dos professores, trazendo algo que deu errado ou que foi engraçado como forma de estimular a aprendizagem com os erros”, compartilha.

Outras ideias para fazer o acolhimento
Especialista do CEDAC dá sugestões de como receber os professores

Uma primeira atividade de acolhimento, recomendada por Angela Lopes, é propor que os educadores registrem como estão chegando naquele encontro, quais os desafios, as expectativas para o ano e as alegrias de estarem ali. Em seguida, pode ser montado um painel e haver uma conversa sobre os sentimentos e questões que apareceram.

Outra estratégia, como a proposta pela diretora Jeane, é ler textos curtos ou trechos de produções literárias, exibir vídeos ou filmes ou levar outro tipo de produção artística para sensibilizar a equipe e dar início a uma discussão. Esse tipo de abordagem colabora para o fortalecimento dos vínculos entre as pessoas e pode gerar uma maior abertura ao diálogo.

Conhecer quem está chegando
Em Marataízes (ES), a diretora Marlúcia Brandão assumiu este ano o desafio de estar à frente da Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. Laurea Freire Brumana, uma nova instituição de tempo integral. Com isso, planeja a recepção de toda a nova equipe. “Estamos apostando muito nesse acolhimento. Precisa ser uma reunião em que não só a gestão fale. Não pode faltar a escuta desse educador, para que ele saiba que aquele espaço é dele”, explica.

Para a gestora, esse momento inicial será fundamental para motivar os educadores para que acreditem e “vistam a camisa” da escola. “Nossa preocupação é que o professor não se sinta sozinho, mas acolhido e apoiado.”

A diretora planeja conversas individuais com cada educador, dinâmicas de apresentação e integração entre a equipe e momentos coletivos de troca e escuta. “Queremos acolher, sensibilizar [sobre os desafios e a importância do trabalho que está sendo realizado pela escola, que se localiza em uma região periférica] e ouvir os sonhos uns dos outros”, relata. Ela compartilhou perguntas que gosta de fazer para conhecer quem está entrando na escola — e que também podem ser utilizadas para se aproximar da equipe.

- Qual é a sua trajetória? Esta pergunta é especial para quem está chegando. Auxilia a conhecer a história do educador e saber há quanto tempo está na docência, além de seus gostos e interesses.
- Qual é o seu sonho para a escola?
- Qual é a sua maior habilidade?
- Qual é o seu maior desafio? Como a equipe gestora pode ajudá-lo?
- O que espera da gestão escolar?

“Se o gestor se coloca à disposição dos professores e transmite essa afetividade e esse respeito, o professor começa a refletir isso na sua prática em sala de aula também”, finaliza a diretora.

Diferentes níveis de escuta
Não basta abrir espaço para conversar; é preciso refinar a prática

Ao propor rodas de conversa e trocas entre a equipe, as especialistas entrevistadas nesta reportagem destacam a importância da escuta. Mas não se trata de qualquer tipo de escuta. Existem quatro níveis, segundo Otto Scharmer, criador do Presencing Institute — organização ligada ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos:

Nível 1 - Escuta habitual (ou downloading): a pessoa não está aberta a receber novas informações ou mudar suas percepções. O foco não está em quem fala.

Nível 2 - Escuta objetiva ou factual: há uma certa abertura, mas apenas para concordar ou discordar.

Nível 3 - Escuta empática: gera-se uma conexão emocional com quem fala.

Nível 4 - Escuta generativa: o ouvinte não apenas se conecta com o interlocutor como também está aberto a mudar de ideia ou tomar uma atitude em relação ao que está sendo dito.

Passar de um nível para outro é um exercício que pode ser realizado coletivamente pela equipe. O curso gratuito Jornada Emoções, desenvolvido pelo Vivescer, trata desses conceitos e traz caminhos para desenvolver o trabalho na escola e para os professores fazerem o mesmo em sala de aula.

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