Compartilhe:

Jornalismo

Sobral (CE): o papel da formação continuada na cidade referência em Educação

NOVA ESCOLA foi até o município cearense para compreender o que tornou essa rede reconhecida nacionalmente; entre as principais ações, destaca-se a capacitação permanente de professores e gestores

PorVictor Santos

26/01/2022

O trabalho de transformação realizado na Educação em Sobral (CE) envolveu uma articulação de diferente fatores e ações. Crédito: Dinho Fotografia

A fama de Sobral, município cearense localizado a 232 quilômetros da capital Fortaleza, já é mais do que difundida no universo da Educação. A cidade, de cerca de 210 mil habitantes e realidade socioeconômica desafiadora, conseguiu, entre 2005 e 2017, saltar sua nota dos anos iniciais do Ensino Fundamental no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 4,9 para 9,1. Só para ter uma ideia da velocidade das transformações: em 2000, 49% dos alunos da rede aprendiam a ler na idade considerada certa; em 2004, essa porcentagem já chegava a 92%. 

Naturalmente, esse avanço impactante nos indicadores apontou os holofotes para Sobral. A cidade passou a receber educadores e especialistas do Brasil e do mundo, buscando compreender o fenômeno e multiplicar essa experiência em outras localidades. 

Foi nesse contexto que o Centro Lemann de Liderança para Equidade da Educação, uma organização associada da Fundação Lemann, se instalou por lá. A proposta dessa nova instituição é promover aprendizagem com equidade na Educação básica brasileira, por meio da formação de gestores educacionais de diferentes locais do país e com apoio à pesquisa aplicada – inspirando-se, para tanto, na experiência de Sobral. A convite do Centro, NOVA ESCOLA, junto com repórteres de outros veículos, viajou até o município cearense, em dezembro de 2021, para acompanhar a inauguração da organização e conferir de perto os elementos envolvidos em uma transformação desse porte. 

O cenário apresentado indica que um trabalho assim envolve a articulação de diferentes fatores e ações: romper com a naturalização do fracasso escolar (um risco que muitas localidades periféricas correm, por meio de pensamentos equivocados,  como “não tem salvação”); promover a autonomia pedagógica e financeiras das escolas; definir metas bem estruturadas de ensino e aprendizagem; e ter uma gestão escolar eficiente e o reconhecimento dos atores envolvidos (incluindo gratificações financeiras). Além disso, um outro ponto apareceu na fala de todos os especialistas, educadores e gestores ouvidos ao longo dos três dias de visita: formação continuada dos professores e gestores. 

Essa capacitação permanente dos educadores locais é consolidada há muito tempo em Sobral. Assim, aproveitamos a oportunidade para nos debruçarmos sobre essas iniciativas em busca de boas práticas para formações continuadas nas escolas públicas brasileiras em 2022 e além. 

Trilha de cursos: Intensivo de alfabetização 

NOVA ESCOLA preparou um intensivo com 60h de formação dividido em dois cursos, para você incluir definitivamente as Metodologias Ativas em suas aulas para alfabetizar seus alunos 


Afinal, qual é o segredo de Sobral?
 

Logo no início da sua entrevista coletiva, a diretora Kátia Drumont, da Escola Trajano de Medeiros (Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos - EJA), cravou: “Não tem segredo, é trabalho”. Ao ter passado por diversas funções na rede de Sobral desde 2003, a professora foi uma testemunha ativa de todo o processo de transformação do ensino na cidade. “Basicamente, houve uma verdadeira força-tarefa, composta por investimento formativo, com capacitação mensal de todos os professores e planejamentos específicos. E uma mentalidade generalizada, que envolvia pensar que o aluno pode tudo e, principalmente, fazer esse aluno acreditar que ele pode”. 

Presente na mesma entrevista, o secretário de Educação de Sobral, Herbert Lima – que comanda a pasta desde 2017 – enfatizou que, na sua perspectiva, a postura diante dos problemas da Educação foi o grande diferencial que norteou a revolução no ensino e aprendizagem da cidade desde o início dos anos 2000. Ele elencou algumas das atitudes que considera cruciais.

A diretora Kátia Drumont e o secretário de Educação de Sobral, Herbert Lima (ambos ao centro): formação continuada é peça-chave na cidade. Crédito: divulgação

“Além da formação constante de todos os professores e da contratação de gestores por competência técnica, Sobral consolidou avaliações em larga escala e, desde 2016, ainda antes da Base Nacional Comum Curricular, já estávamos revisitando o currículo com foco nas habilidades a serem desenvolvidas na aprendizagem”, disse o professor e secretário. “Além disso, buscamos garantir as condições básicas para o  aluno estudar, incluindo aí fardamento, calçado, mochila e livros que vão além das obras do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Também houve um trabalho envolvendo competências socioemocionais, reforçado nesse período da pandemia”. 

A experiência de Sobral não atraiu apenas equipes de secretarias de Educação que foram até a cidade para analisar essas conquistas. O Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social (Lepes), fundado em 2011 na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto (SP), dedicou muitos de seus estudos para compreender o que funcionou ali. Em 2019, decidiu abrir um escritório permanente no município, para entender mais de perto os problemas e potencialidades atuais, além de desenvolver novas pesquisas. 

Em conversa na sede do Lepes em Sobral, Daniel Santos, professor de Economia da USP e coordenador do laboratório, destacou: “Houve, de fato, uma transformação em Sobral, e eu a sintetizo em três pilares: saber aonde queria chegar, definições dos papéis dos atores e condições para que isso florescesse – envolvendo uma formação continuada bem montada e um trabalho com dados, utilizados como evidências para consolidar capacitações e avaliar processos”. 

Foco na equidade – e no pedagógico 

Anna Penido, diretora do Centro Lemann de Liderança para Equidade da Educação, também conversou com os jornalistas durante a visita ao município cearense. Para ela, quando se fala em realizar um trabalho com foco na redução das desigualdades educacionais, na linha do que foi feito em Sobral, não se trata de simplesmente replicar um modelo. 

“O importante é entender os princípios e alavancas utilizados aqui na cidade'', afirmou a especialista. “Depois disso, nossa proposta é empoderar as lideranças para garantir as condições necessárias para a equidade, que consiste em fornecer o que os alunos precisam na medida das suas necessidades. Crianças e adolescentes de áreas conflagradas, por exemplo, possuem desafios diferentes de outros locais”, completou. “Tudo envolve o pedagógico, mais do que o administrativo e o político. E devemos ter claro que a escola não resolve tudo sozinha, outras áreas como saúde, cultura e assistência social são necessárias para garantir melhores condições”. 

Segundo Rogers Mendes, gestor do programa de formação de lideranças educacionais do Centro Lemann, a centralidade no pedagógico é premissa básica na hora de estruturar capacitações de gestores escolares. “Para garantir que cada estudante desperte o seu potencial, é importante ter estratégia”, ressaltou. “Sobral, por exemplo, mostrou que a alfabetização é a chave e consolidou um acompanhamento constante da aprendizagem, com gestão e professores interagindo ativamente em prol do ensino e aprendizagem em sala de aula”.

“Formação com professores que conhecem o chão escolar” 

Não foi coincidência a conversa no Lepes também ter trazido à tona a questão da formação continuada. A pesquisadora e coordenadora da unidade de Sobral do laboratório, Diana Viana, é ex-formadora de professores da Educação Infantil na rede e trouxe luz a alguns pontos relacionados a esse processo. 

"A formação por aqui é um processo bem horizontal dentro da rede, com muitas trocas e devolutivas entre professores e formadores, e um planejamento baseado em evidências", destacou Diana. "Tudo isso conduzido pela nossa escola de formação continuada em serviço, com professores que conhecem o chão escolar, a rede e as escolas". 

Como contou o seu diretor-presidente, Amaury Gomes, a Escola de Formação Permanente do Magistério e Gestão Educacional (Esfapege) de Sobral foi criada em 2005 e se qualificou no ano seguinte como Organização Social (OS). “Somos responsáveis por estruturar cronogramas de formações para os professores, e é uma formação em serviço, que ocorre em um dia de expediente, no horário de trabalho, uma vez por mês. Elas se transformaram completamente em 2020, quando se tornaram formações remotas". Amaury é professor e também já passou por diferentes funções na rede municipal. Ele apontou que “a Educação em Sobral tem uma característica muito forte de aproveitar os quadros que cria”.

Combo de cursos: Gestão Escolar

Esse combo de cinco cursos de NOVA ESCOLA engloba duas formações para coordenação pedagógica, construção de Projeto político-pedagógico alinhado à BNCC; avaliação na Educação Básica e três ações para uma boa relação entre o professor e a família


Esse mesmo aspecto foi sublinhado pela diretora pedagógica da Esfapege, Ana Fábia Barbosa, que também já esteve em muitos cargos na Educação da cidade – em 2016, quando era educadora do 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Emílio Sendim, apareceu em uma reportagem de NOVA ESCOLA. “Por mais que estejamos em determinadas funções, acredito muito nisso de que ‘somos professores para sempre’”, reforçou Ana. “Na minha função atual, somos responsáveis por organizar toda a formação dos professores, uma característica muito forte da nossa rede”. 

A diretora explicou que as formações mensais possuem carga horária de quatro horas e são divididas de acordo com cada um dos ciclos – Educação Infantil, anos iniciais do Ensino Fundamental e anos finais do Ensino Fundamental – e estão devidamente alinhadas com as coordenadorias de cada etapa na Secretaria de Educação. Posteriormente, os cronogramas dessas capacitações são encaminhados para as escolas. 

"A formação propõe, mas o professor é o protagonista e tem voz e vez dentro dela", afirmou Ana Fábia. "O objetivo de cada formador é pensar o que o professor de fato está necessitando naquele momento. E, considerando o foco na aprendizagem dos alunos, deve também refletir sobre como chegar até o professor com essa formação, para que ele consiga chegar até o seu aluno” [veja mais no box no final da reportagem]

A pesquisadora do Lepes, Diana Viana, recordou do período em que atuou na escola de formação. “Nós, da Educação Infantil, pegávamos o contexto profissional dos professores, a ação cotidiana deles, e buscávamos transformar em percurso formativo”. Ela relembrou formações envolvendo leitura de histórias e a busca por desenvolver, por parte dos professores, um olhar sensível para as crianças. 

Outra experiência foi uma roda literária on-line em que foi usado o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. “As próprias professoras foram lendo trechos em voz alta, e muitas delas se identificaram com as passagens, chegando até a se emocionar e chorar", lembrou. "Reforçamos que as crianças também são assim em relação à identificação. Muitas vezes, a gente está lendo determinada história, e elas dizem 'ah, esse personagem é meu pai'. E ao invés de já respondermos ‘não, seu pai não tem nada a ver com isso’, cabe a nós professores desenvolvermos esse olhar sensível e entender: 'Ah, e onde está o seu pai aqui na história? É o lobo? O caçador?’, e assim vai".

Dicas para realizar uma boa formação continuada

Educadoras de Sobral sinalizam os caminhos para uma efetiva e permanente capacitação de gestores e professores 

- Cada contexto é um contexto. Como os entrevistados enfatizaram, não se trata de meramente reproduzir um modelo que deu certo em um lugar: os formadores precisam conhecer a realidade dos professores, em espaços de diálogo e construção. 

- Atentar-se para boas práticas já existentes na própria rede é uma boa iniciativa. A pesquisadora Diana Viana, do Lepes, indica que, por meio de conversas com os educadores, “é como se usássemos uma lupa, identificando o que funciona e melhorando o que não vai tão bem”. 

- Nessa mesma linha, é importante criar um ambiente que estimule trocas entre os professores. “Eles próprios sempre pedem relatos de experiências dentro das formações”, diz a diretora pedagógica Ana Fábia Barbosa. “Assim, eles podem trocar entre si, posteriormente fazendo adequações às suas realidades.” 

- Outro ponto para não perder de vista: formação é criar vínculos. "O vínculo gera segurança e abre espaço para o diálogo", aconselha Diana. "Tem professor que já tem vinte anos de atuação, e chegamos lá para falar sobre algo que ele faz a vida inteira. É preciso se esforçar para conhecer esse educador na sua singularidade, como um ombro amigo mesmo." 

- Como seguimos vivenciando um contexto incerto, o acolhimento se mantém  essencial. “As competências socioemocionais são mais importantes do que nunca, e aparecem nas nossas formações e também em nossos materiais”, relata Ana Fábia. 

- Devolutivas e feedbacks também são elementos-chave. “Lembro que eu recebia mensagens dos professores com fotos e descrições das atividades realizadas nas escolas, e eles me perguntavam ‘é mais ou menos isso que você falou na formação?’”, conta Diana. A diretora Ana Fábia destaca ainda que, após toda formação, os educadores preenchem um formulário, avaliando e dando sugestões. 

- Visitas às escolas também podem ajudar no vínculo. “Por exemplo, às vezes falamos que é importante ocupar lugares externos, mas precisamos conhecer a instituição e saber quais espaços existem para isso”, resume Diana. "E a visita deve ser responsável e ética: não se trata de fiscalizar o trabalho de ninguém, e sim de focar no ensino e aprendizagem de professores e alunos.” 

- Formações devem também fortalecer o senso crítico dos educadores. “No dia a dia, os professores já fazem e veem muita coisa. Cabe à formação apenas dar uma ‘estimulada’ no olhar crítico sobre essas práticas”, indica a pesquisadora do Lepes. 

- Por fim, é essencial uma articulação entre todos os envolvidos nessas formações continuadas, para garantir o bom andamento. “Temos uma estrutura, um plano de trabalho a ser seguido em relação às formações, e tudo isso é muito alinhado à Secretaria de Educação”, conclui Ana Fábia.

continuar lendo