Compartilhe:

Jornalismo

Volta às aulas: Como planejar a alfabetização matemática

Do olhar para as aprendizagens essenciais a sugestões para organizar a sala de aula, confira pontos para levar em consideração na hora do planejamento

PorSelene Coletti

24/01/2022

Crédito: Getty Images

Um novo ano letivo, nova turma e novas possibilidades de colocar em prática as aprendizagens de 2021. É impossível começar as nossas conversas por aqui sem olhar para o planejamento. Na verdade, diria que é imprescindível.

É o momento que a escola se reúne para discutir o que foi positivo e o que é necessário mudar. Assim como traçar os novos objetivos e rumos para ano que se inicia.  

Sabemos que planejar é preciso! Entretanto, é necessário fazê-lo de uma forma que atenda às reais necessidades da nossa comunidade – e não simplesmente fazer por uma questão burocrática. Também não podemos deixar de pensar nas especificidades de cada área do conhecimento. Óbvio que não poderíamos de ter aqui um olhar especial para a Matemática.

Planejando o que será trabalhado

Ao retomar as aulas presenciais pudemos perceber, na prática, os impactos da pandemia nas aprendizagens dos alunos. É fundamental identificar os estudantes que tiveram mais dificuldade de acesso às atividades remotas para ter um acompanhamento mais próximo de quem mais precisa.

Os quatro principais desafios da Educação no início de 2022

Confira reflexões a respeito de quatro pontos essenciais para o planejamento deste ano na área educacional: o retorno às aulas presenciais, o combate à evasão, a estruturação da recomposição de aprendizagem e o acolhimento dos alunos


Outro aspecto a ser discutido é levantar, a partir de uma análise reflexiva, o que cada turma realmente conseguiu aprender. Este diagnóstico deve ser considerado pelas equipes escolares no momento do planejamento inicial.

Certamente as classes não serão as mesmas de antes. Teremos, por exemplo, alunos no 2º ou 3º ano do Ensino Fundamental que, além de não dominarem o sistema de escrita, não dominarão a contagem, a resolução de situações-problemas, as ideias de adição e subtração e a própria noção dos números.

Dessa forma, precisaremos rever “o que” e o “como” iremos conduzir o processo de ensino e aprendizagem a fim de garantir a evolução de todos.

É necessário “cruzar” as habilidades propostas para o ano daquela turma, quais já foram desenvolvidas e aquelas que deveriam ter sido ser trabalhadas previamente, mas que não foram atingidas por diversos motivos. Este movimento será validado, posteriormente, quando a avaliação diagnóstica (ou a sondagem matemática) for realizada.

Para isso, é fundamental ter a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e/ou o currículo escolar em mãos para fazer as readequações necessárias nas habilidades a serem priorizadas. Acredito que, em muitos casos, revisitar os Mapas de foco irá ajudar. Também sugiro conferir esta coluna em que trouxe estratégias e sugestões para priorizar as aprendizagens matemáticas.


Olhar para as necessidades de cada turma e a prática pedagógica

Mais do que nunca necessitamos ter em mente que cada turma é única. Por isso não podemos fazer o mesmo que a colega faz na outra sala ou repetir o que fizemos no ano anterior. É uma desconstrução que, para ser possível, a equipe gestora deve estar atenta e contribuir para a reflexão da equipe em prol da mudança na prática em sala de aula.

Em seguida, também é necessário investir em propostas que desenvolvam as habilidades que elencamos serem prioritárias e necessárias na turma. Faça uso da tecnologia que tem acesso, experimente metodologias ativas, estimule o trabalho em grupo, proponha os jogos, favoreça o protagonismo dos seus alunos. Use os recursos que tem a sua disposição para inovar e superar os desafios de 2022.

Planeje o ambiente alfabetizador

Em paralelo, não deixe de pensar e organizar o ambiente físico da sala de aula para garantir que a alfabetização matemática aconteça, que as trocas e a construção dos conhecimentos sejam possíveis.

Curso: Desenvolvendo o letramento matemático

Aprofunde-se no significado do letramento matemático e qual é a proposta trazida pela BNCC. Entenda também como colocar em prática estratégias como a resolução de problemas, a investigação, o desenvolvimento de projetos e a modelagem.


Podemos começar pensando em como organizar o espaço. Carteiras dispostas em fileiras uma atrás da outra não favorece o diálogo e nem a circulação das ideias e informações. Você já havia pensado nisso?

Pode parecer tão simples, mas é uma escolha carregada de intencionalidade do professor – e é mais um ponto para discussão neste momento coletivo. Por exemplo, organização em duplas propicia as trocas e a interação entre os alunos; agrupamentos de quatro mesas podem ser utilizadas para as atividades envolvendo jogos (também é possível manter a configuração nos momentos do trabalho diversificado); enquanto a formação em U favorece a discussão coletiva e é interessante para a socialização das resoluções discutidas nos grupos.  Evidente que tudo isso deve ser feito levando em consideração os protocolos sanitários necessários para este momento de pandemia.

Outro aspecto a ser pensado está relacionado aos recursos que podem ser utilizados para fortalecer a alfabetização e o letramento matemático: jogos, livros de literatura infantil, materiais para manipular e equipamentos tecnológicos. Além disso, também temos aqueles que remetem à função social da Matemática: calendários, propagandas, gráficos, tabelas e outras informações numéricas. Não esqueça que quadro de números e a reta numérica não podem deixar de estar presentes nesse espaço. Se quiser lembrar, ou mesmo conhecer, confira aqui materiais que precisam estar presentes em sala.

Organize uma lista do que será necessário providenciar a partir do que a escola já tem. Permita que sua classe tenha um espaço favorável às brincadeiras e aos jogos – sobretudo no ciclo de alfabetização. Dessa forma, as aprendizagens construídas serão mais significativas e atendam às necessidades.

Curso: Jogos matemáticos para melhorar a aprendizagem no Fundamental 1

Com base em experiências reais, entenda como fazer um trabalho com jogos para avançar nas aprendizagens matemáticas.

Também é momento de decisões coletivas

Pensando na escola como um todo, aproveite este momento para discutir com os colegas as situações didáticas que a rotina deve contemplar para atender às prioridades. Pensem qual é a melhor forma de organizar o planejamento semanal e como registrar o percurso ao longo do ano – saiba mais da importância do registro para o acompanhamento das aprendizagens matemáticas.

Nesse início do ano, não deixe também de pensar o acolhimento dos alunos. Que tal oferecer um jogo para jogar na classe e depois ser levado para a casa e jogado com as famílias? Ano passado, na minha escola, oferecemos um tangram.

São muitas as demandas que precisam ser discutidas ao longo dos primeiros encontros formativos da sua escola. Entretanto, o mais importante é aproveitar este momento de planejamento para, assim como os seus alunos, estar com a equipe escolar trocando ideias e dialogando.

Desejo um novo começo a cada um de vocês.

Até a próxima!

Selene

Selene Coletti é professora há 40 anos na rede pública. Atuou na Educação Infantil e foi alfabetizadora por 10 anos, lecionando do 1º ao 5º ano. Em 2016, foi uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita,  com o projeto “Mapas do Tesouro que são um tesouro”, na área de Matemática. Foi diretora de escola e recebeu, em 2004, o Prêmio “Gestão para o Sucesso Escolar”, do Instituto Protagonistes/Fundação Lemann. Atuou como coordenadora do Núcleo de Formação Continuada e também como formadora da Educação Infantil na Prefeitura de Itatiba (SP). Atualmente é vice-diretora da EMEB Philomena Zupardo, em Itatiba.

continuar lendo