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Jornalismo

Avaliação formativa: corrigindo rotas para avançar na aprendizagem

Processo avaliativo constante e com instrumentos diversificados permite mapear o conhecimento dos estudantes para orientar o planejamento docente e fazer intervenções pedagógicas mais assertivas

PorIngrid Yurie

24/01/2022

A professora Elisa Vilalta foi fotografada no corredor da escola, em frente ao trabalho de alguns alunos.
 A professora Elisa Vilalta, que utiliza avaliação formativa, na Escola Municipal Arnon Afonso Farias de Mello, em Maceió (AL). Crédito: Itawi Albuquerque/NOVA ESCOLA

Todo final de bimestre, a professora Elisa Vilalta, que leciona História para os anos finais do Ensino Fundamental na rede municipal de Maceió (AL), deparava-se com frustrações comuns a muitos educadores: constatar ao término de um período que alguns estudantes não desenvolveram as aprendizagens esperadas. Além disso, ela também observava que outros alunos, apesar de demonstrarem o domínio do conhecimento, não o expressavam na prova e tiravam notas baixas, o que os deixava desmotivados.

“Eu me dei conta de que fazia mais sentido verificar as dificuldades dos alunos no meio do caminho, em diferentes momentos e de formas diversas, do que deixar para o final do bimestre, quando não dá mais para voltar atrás ou mesmo oferecer outras ferramentas para eles mostrarem o que sabem”, relata a educadora sobre o motivo que a levou a trabalhar com a avaliação formativa.

Nesse tipo de avaliação, o professor investiga durante todo o tempo, na sala de aula, se os alunos estão ou não aprendendo e por quê. Essas informações servem para replanejar as atividades seguintes, de modo a atender às necessidades da turma ou de grupos de estudantes. Também permitem ao docente dar as orientações que os alunos precisam para se desenvolverem melhor, estimulando o protagonismo deles. 

A abordagem acompanha uma mudança de foco do ensino para a aprendizagem, reforçada sobretudo pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e respeita o fato de que os estudantes possuem ritmos e maneiras variadas de aprender. Desconstrói, ainda, a responsabilização única dos alunos pelas lacunas em suas aprendizagens.

“Aprender faz parte do direito à educação. Se o aluno não desenvolveu uma habilidade prevista ao final de um período e nada for feito em relação a isso, ele está sendo aviltado do seu direito, ressalta Rodrigo Fonseca, docente, mestrando em formação de professores, currículo, trabalho docente e avaliação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e sócio-diretor do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa, Ensino e Consultoria (Nipec).

No contexto da retomada das aulas presenciais, a avaliação formativa pode apoiar a progressão das aprendizagens, uma vez que oferece possibilidades de trabalho com estudantes em diferentes níveis de aprendizagem, e também proporcionar a utilização de metodologias ativas, que costumam engajar mais os alunos nas atividades. Além disso, seu planejamento exige considerar os sujeitos e suas realidades, levando em conta as experiências que tiveram durante a pandemia. “Dessa maneira, a escola se torna um ambiente mais favorável para que as aprendizagens possam acontecer”, completa Rodrigo.

Avaliar para intervir

Para iniciar o processo de avaliação formativa no começo de um ano letivo, por exemplo, o professor pode partir de uma avaliação diagnóstica, que busca compreender o que os estudantes sabem sobre determinado assunto ou objeto de conhecimento, quais as suas lacunas e, principalmente, quem são esses alunos e em que contexto estão inseridos. Esses dados possibilitam personalizar o processo de ensino e aprendizagem de forma contextualizada e significativa para os alunos.

Rodas de conversa, brincadeiras e atividades mão na massa costumam ser indicadas para levantar essas informações, que vão embasar o planejamento pedagógico. Essa etapa dialoga bem com a metodologia do planejamento reverso: primeiro o professor define os objetivos de aprendizagem que deseja alcançar, bem como o que ele espera que os alunos façam para mostrar que atingiram essa aprendizagem, e depois planeja como alcançá-los.

“Se tenho o objetivo de fazer com que os alunos usem informações científicas para produzir um discurso sobre mudanças climáticas, por exemplo, preciso definir o que eles têm de realizar para mostrar que esse objetivo foi atingido e como vou observar e registrar isso”, orienta Heloize Charret, cofundadora da MAPA Metodologias Ativas, startup carioca voltada para a formação de educadores.

Ao longo das atividades, cabe ao professor acompanhar e registrar as evidências de aprendizagem, tanto em relação aos objetos de conhecimento quanto às competências gerais propostas pela BNCC. “Também é relevante promover oportunidades de avaliação em diferentes momentos do processo para que a percepção seja a mais fiel possível”, pondera Kátia Chiaradia, professora, formadora de docentes, integrante do time de autores da NOVA ESCOLA e consultora pedagógica desta reportagem.

Fotografia da professora Elisa Vilalta na sala dos professores com outros colegas da equipe.
O trabalho com avaliação formativa é fortalecido quando apoiado pela escola e compartilhado entre professores e gestores. Crédito: Itawi Albuquerque/NOVA ESCOLA

Evidências de aprendizagem e trilhas personalizadas

Após coletar e analisar as evidências de aprendizagem, volta-se ao planejamento para redefinir as atividades seguintes de acordo com o desenvolvimento apresentado pela turma. É possível estabelecer um objetivo comum para todos e trilhas personalizadas para grupos de estudantes com o mesmo perfil de aprendizagem – por exemplo, aqueles que estão com mais dificuldades, os que compreenderam parcialmente e os que já estão dominando o assunto –, para a realização de atividades específicas. Isso não pode significar, contudo, um ranking ou uma separação entre os estudantes.

“O professor pode compartilhar com os alunos as devolutivas sobre suas progressões, mas a classificação é exclusiva do professor, para não transformar diferenças em desigualdades”, alerta Rodrigo Fonseca. Ele sugere propor trabalhos em grupos homogêneos perante determinada aprendizagem e, depois, atividades em grupos heterogêneos. 

Para finalizar o processo, pode haver uma avaliação somativa para verificar se os objetivos de aprendizagem definidos foram atingidos. “Não tem problema se for uma prova tradicional, porque o foco não está nos instrumentos que serão utilizados. O que faz algo ser formativo é responder a uma pergunta: e daqui para frente, o que eu faço com esse resultado?”, aponta Katia Smole Stocco, diretora do Instituto Reúna, organização que visa apoiar a implementação da BNCC, e fundadora do Grupo Mathema, que trabalha com formações em Matemática.

O percurso da avaliação formativa
A avaliação formativa está no centro da ação de formação do aluno. Confira um caminho possível, que pode ser adaptado a diferentes demandas e realidades.

1. Mapear

No começo de um programa ou uma unidade temática, a avaliação diagnóstica (também chamada de prognóstica ou sondagem) permite identificar os conhecimentos prévios dos estudantes e eventuais lacunas para traçar a progressão das propostas. Ela tem, portanto, a função de permitir um ajuste no planejamento do professor. Além de instrumentos mais tradicionais, como provas, as rodas de conversa e atividades mão na massa são ideais para esse tipo de mapeamento.

2. Planejar

Com o resultado da avaliação diagnóstica e os objetivos de aprendizagem definidos, é possível desenhar o percurso pedagógico e as experiências didáticas que acontecerão em determinado período de tempo.

Ilustração infográfica sobre intervenção e avaliação.

3. Intervir e avaliar

Conforme as aulas acontecem, a avaliação formativa está sempre em cena para acompanhar o desenvolvimento dos estudantes. Vale desde autoavaliação e avaliação por pares até andar pela sala e anotar como vão as discussões em grupo. Para isso, é essencial que o professor tenha intencionalidade pedagógica, ou seja, tenha claro para si as aprendizagens que está buscando reconhecer naqueles alunos após o processo de estudo – com critérios e expectativas bem desenhadas, por exemplo, por rubricas, isto é, descrição dos níveis de desempenho esperados na realização de determinada atividade.

Ilustração infográfica sobre análise.

4. Analisar

As informações obtidas permitem uma análise do desenvolvimento da turma e de cada estudante em relação aos objetivos de aprendizagem esperados. A avaliação formativa deve ser “informativa” para o professor, do início ao fim, respondendo a perguntas como “o que meus alunos devem saber sobre esse assunto?” e “que informações sobre o aprendizado dos meus estudantes consigo obter aqui?”.

Ilustração infográfica sobre replanejamento e intervenção.

5. Replanejar e intervir

Com a análise feita, é hora de planejar novas intervenções, que sirvam para retomar ou reforçar alguns pontos. Por exemplo, elaborar novas atividades inicialmente não planejadas ou, ainda, organizar uma nova sequência de aulas.

Ilustração infográfica sobre a finalização da avaliação formativa.

6. Finalizar

Ao final, a avaliação somativa (também chamada de cumulativa, formal ou simplesmente “prova”) verifica o que o aluno alcançou em relação ao que foi planejado. Por isso, ela é sempre terminal e mais global. Vale considerar esses resultados como parte da avaliação diagnóstica da próxima etapa.

Ilustrações: André Asahida

 

Trabalhando com rubricas em uma atividade sobre evolucionismo e criacionismo

Ao abrir a possibilidade de promover alterações no planejamento no meio do processo, a avaliação formativa traz novas oportunidades de aprendizagem aos estudantes, mas também dá ao educador a tarefa de aprender a registrar e sistematizar as observações no cotidiano escolar. E o desafio não é pequeno: as salas costumam ter muitos alunos, e o tempo é curto. Nesse sentido, o trabalho por rubricas pode auxiliar.

Para cada um dos objetivos de aprendizagem definidos, o professor pode elaborar três ou quatro gradações de nível de aprendizagem, que podem ser construídas e compartilhadas com os estudantes. Elas indicam desde o conteúdo mínimo que o aluno precisa saber ou fazer para que se possa considerar que aprendeu algo até o pleno domínio do objeto de conhecimento.

Foi assim que trabalhou a professora Elisa Vilalta em uma sequência didática de História para os 6º e 7º anos da Escola Municipal Arnon Afonso Farias de Mello, em Maceió (AL). Para começar, definiu seus objetivos: que os estudantes levantassem hipóteses sobre o surgimento dos seres humanos na Terra e aprendessem a definir e diferenciar as teorias do criacionismo e do evolucionismo. 

Os estudantes foram então divididos em quatro grupos. Dois deles estudaram documentos sobre evolucionismo, e os outros dois, sobre criacionismo; depois, realizaram um debate. Cada grupo explicou ao outro a teoria que havia pesquisado, enquanto elaborava um mapa mental com as diferenças entre os conceitos. 

“Compartilhei com eles os critérios de avaliação e fui circulando pela sala para ouvir as conversas, observar os mapas mentais e fazer questionamentos para ajudá-los a chegar às respostas das dúvidas que tinham. Também aproveitei para avaliar a maneira deles de trabalhar em grupo e expor as opiniões aos colegas”, relata Elisa. 

Ao mesmo tempo, ela registrava discretamente suas percepções em uma tabela com os objetivos de aprendizagem desmembrados em rubricas. Como legenda, costumava usar sinais e desenhos, como bolinhas e estrelas, que indicavam o nível de aprendizagem conquistado. “Visualmente, faz mais sentido para mim do que nomear como ‘demonstrou’ ou ‘demonstrou parcialmente’, porque fica muito fechado, rotula”, diz.

Depois, a turma fez junto com a professora uma grande sistematização na lousa para consolidar os conhecimentos e arrematar eventuais dúvidas. Por fim, os estudantes também preencheram um questionário de autoavaliação.

“O mais difícil, ao começar a trabalhar com a avaliação formativa, foi mudar o jeito de planejar e acostumar os estudantes a essa nova forma de aprender. Mas depois de muito trabalho e diálogo, vi que eles começaram a se sentir mais seguros, menos tímidos ao se expor. Estavam mais donos de seus percursos de aprendizagem e percebendo melhor seus avanços e potências”, observa a educadora. 

Durante a pandemia, Elisa adaptou a avaliação formativa contando apenas com o uso do WhatsApp. Pelo aplicativo, apresentava aos estudantes a proposta e o objetivo das atividades e depois as enviava acompanhadas de autoavaliações. “Foi possível coletar bastante material com quizzes virtuais, fotos e áudios dos alunos comentando o que estávamos fazendo”, afirma. 

Ela cita como exemplo o estudo da mitologia grega. “Cada estudante pesquisou sobre um deus grego e gravou um vídeo apresentando a figura mitológica escolhida. Para avaliar, usei esses registros, uma autoavaliação e uma avaliação entre pares.”

Fotografia da professora Elisa Vilalta segurando projetos entregues pelos alunos com o tema Criacionismo.
A professora Elisa preparou fichas sobre evolucionismo e criacionismo para realizar uma sequência didática com os alunos. Crédito: Itawi Albuquerque/NOVA ESCOLA

Metodologias ativas e avaliação formativa: a combinação ideal

Como a avaliação formativa ocorre durante o próprio processo de ensino e aprendizagem, é indicado o uso de metodologias ativas, que estimulam o protagonismo do aluno e permitem à turma aprender e demonstrar seu desenvolvimento de formas variadas. “Tem estudante que se dá melhor desenhando; outro, escrevendo. É importante oferecer vários instrumentos para que não se sintam desconfortáveis em serem quem são”, diz Kátia Chiaradia, do time de formadores da NOVA ESCOLA.

O júri simulado é uma das metodologias ativas com as quais o professor de Geografia Anderson Clayton Candido da Silva, da rede municipal de Volta Redonda (RJ), mais gosta de trabalhar com suas turmas dos anos finais do Ensino Fundamental. Segundo ele, a metodologia motiva os estudantes e oferece possibilidades ricas de observação.

Ele conta que costuma selecionar um tema polêmico e organizar os estudantes em equipes, que devem estudar e preparar seus argumentos para defender um ponto de vista. Ele dá como exemplo a discussão que realizou sobre os conflitos na Palestina. “Eu levantava a problematização, observava os estudantes e fazia anotações ao lado do nome de cada um. Percebi que eles ainda não haviam aprendido conceitos como Estado, nação, país e povo”, relata. 

A atividade não valeu nota, mas serviu para o professor corrigir o percurso. Durante o bimestre, ele abordou esses conceitos novamente, de diferentes formas, e, ao final do processo, aplicou uma avaliação somativa.

“A primeira mudança que percebi foi ver os alunos mais engajados deixando de lado o ‘estudar para a prova’. Mais do que isso, também consigo me avaliar, porque me indica os pontos que eu posso ensinar de uma forma melhor”, conta o educador. 

Abertura para o novo e replanejamento

Na Escola da Serra, instituição particular em Belo Horizonte (MG), não há provas tradicionais nem notas. Os estudantes são avaliados de maneira formativa constantemente. Enquanto eles desenvolvem roteiros de estudo individualmente ou em grupo, os professores circulam pelo espaço mediando as aprendizagens, observando os processos, conversando com eles e registrando as percepções que têm do desenvolvimento dos estudantes. Assim, as correções de rota da aprendizagem acontecem em tempo real e de maneira personalizada. 

“Nesse contexto, o professor tem que estar aberto para o que os alunos trazem e usar isso a favor do prazer em aprender”, afirma Sara Villas, professora de Ciências Humanas da escola.

No ano passado, por exemplo, um estudante que tinha facilidade em resolver um cubo mágico propôs um campeonato entre os colegas do ciclo, que corresponde aos anos finais do Ensino Fundamental. A escola não só incentivou a realização do evento como considerou o momento na avaliação dos estudantes. 

“Eles montaram uma comissão e organizaram tudo: os recados para as famílias, as regras do jogo e um formulário para inscrição. Isso não estava previsto no planejamento, mas não há como ignorar a aprendizagem que envolve. Por isso é importante ter espaço para a escuta verdadeira dos alunos. Trabalhar com avaliação formativa é estar vivo e aberto ao replanejamento e, principalmente, aos estudantes”, finaliza a professora Sara.

Elementos para uma boa avaliação formativa
Mudanças de concepção e na relação com os estudantes são necessárias para que a abordagem funcione 

Formação e experimentação. Para começar a trabalhar com a avaliação formativa, é importante estudar não só a abordagem em si, mas também outros conceitos que enriquecem a prática, como o planejamento reverso, as metodologias ativas e as rubricas. Além disso, é importante ter a oportunidade de experimentar como “aluno” o que é um processo de avaliação formativa, uma vez que a formação docente inicial tem uma perspectiva muito diferente. “Não adianta só mudar o instrumento de avaliação, é importante mudar concepções”, diz Katia Smole, diretora do Instituto Reúna, que desenvolveu um projeto específico sobre avaliação, o Avalia e Aprende.

Compreensão do papel do erro na aprendizagem. “O erro não deveria ser algo negativo, porque é o primeiro indicador do que eu não devo fazer e possibilita a construção de um caminho”, destaca Kátia Chiaradia, integrante do time de formadores da NOVA ESCOLA. Isso vale para os estudantes, mas também para os professores, que vão precisar rever maneiras de fazer perguntas, modos de apresentar um assunto e, talvez, um planejamento inteiro – e há espaço de sobra para isso na avaliação formativa. 

A relação com os estudantes. A avaliação formativa pede muito diálogo: os estudantes precisam ter oportunidades de mostrar o que sabem ou não, e o professor deve compartilhar com eles informações sobre seu desenvolvimento. “Quando sou clara com o aluno sobre os objetivos de aprendizagem que temos e o que se espera dele, e depois vou avaliando e dando devolutivas constantemente, crio um vínculo calcado na parceria, e ele também se torna participante dessa trajetória”, explica Heloize Charret, cofundadora da MAPA Metodologias Ativas.

Consultoria pedagógica: Kátia Chiaradia

Esta reportagem faz parte do projeto Avaliação Formativa, em parceria com a Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA.

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