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A favela como um espaço da cidade

Ao estudar os bolsões de moradia irregular, a classe aprende sobre o espaço, a transformação do visual e as relações sociais e econômicas

Ana Rita Martins

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro. Foto: Sambaphoto/Paulo Fridman/Getty Images
Favela da Rocinha no Rio de Janeiro.
Foto: Sambaphoto/Paulo Fridman/Getty Images.
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Subindo morros, margeando córregos ou penduradas em palafitas, as favelas fazem parte da paisagem de um terço dos municípios do país, abrigando mais de 10 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nas salas de aula, é difícil encontrar um professor que já não tenha recebido um estudante morador dessas áreas - ou, inclusive, lecionado em uma unidade dentro desses precários complexos habitacionais. Mesmo assim, nos livros didáticos dos estudantes, é raro encontrar uma abordagem aprofundada sobre o tema.

Estudar o assunto em classe, mais do que uma forma de romper preconceitos, é uma oportunidade para ensinar a turma a reconhecer as diferentes formas das paisagens urbanas, compará-las, entender as modificações no espaço feitas pelo homem e as relações sociais e econômicas nesses territórios. O primeiro passo para iniciar a discussão é entender como esses bolsões de moradia surgiram.

O crescimento da cidade e o aparecimento das favelas 

Com o declínio do mercado negreiro, ex-escravos e outras parcelas da população acabaram se fixando em fundos de vale e encostas de morros, que, por estarem dentro da cidade, ficavam mais próximos do mercado de trabalho, conta o geógrafo Andrelino Campos, no livro Do Quilombo à Favela - A Produção do Espaço. Com o desenvolvimento da economia brasileira durante o século 20, esses espaços também foram sendo ocupados, pouco a pouco, pelas pessoas que saíam do campo em busca de melhores condições nos centros urbanos, mas que não podiam pagar para morar nas áreas nobres.

O tempo fez crescer o número de favelas no Brasil sem que, no entanto, o Estado oferecesse a infraestrutura apropriada - com acesso a saneamento básico e segurança, por exemplo. "A população se organizou. Podemos citar os mutirões e também as associações de moradores, criadas para reivindicar o acesso a serviços públicos", afirma Jailson de Souza, geógrafo da organização não-governamental Observatório de Favelas.

Em classe, cabe ao professor abordar a organização coletiva para os alunos perceberem a importância da luta social pela alteração do espaço. As relações familiares, marcadas pela convivência em cômodos apertados, também podem servir de subsídio para conversar com a turma. Nas discussões sobre emprego e renda, a questão da ilegalidade na obtenção de energia, luz e esgoto - os chamados "gatos" - não pode ser esquecida.

Pobreza material não significa miséria cultural 

Foto: Marcelo Min
TRANSFORMAÇÃO Os mutirões fazem parte da realidade das favelas. Coletivamente, o espaço da cidade é modificado. Foto: Marcelo Min
Foto: Marcelo Min
MISTURA CULTURAL Abrigando negros, brancos e índios, os bolsões de moradia são caldeirões musicais. Foto: Marcelo Min

É importante que os estudantes também percebam que a favela não é um espaço isolado e caracterizado apenas por problemas socioeconômicos e de infraestrutura. "Por ser um ambiente multicultural, com pessoas vindas de diferentes lugares do país, esse espaços se tornaram condensadores de cultura", afirma Paulo Lins, poeta e autor do livro Cidade de Deus, que dedicou parte de sua vida a pesquisas antropológicas sobre o assunto. "Não à toa, certas manifestações que fazem parte da identidade cultural brasileira, como o samba e o pagode, têm seus maiores expoentes vindos justamente das comunidades. O rap, o funk e mesmo a religiosidade afro-brasileira, como a umbanda e o candomblé, também floresceram lá. Pobreza material não significa pobreza cultural", complementa.

Diversidade é um conceito presente a todo momento nas discussões sobre os bolsões de moradias irregulares. É necessário explorar também o fato de que elas não são todas iguais. "No Norte e no Nordeste do país, existem comunidades erguidas sobre palafitas por causa de cheias dos rios e de mangues. E podem existir tipos diferentes de casa: de alvenaria e de madeirite, por exemplo", afirma Antonia dos Santos Garcia, mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para compreender a realidade da favela por meio do seu espaço, o professor pode usar os procedimentos geográficos de observação, descrição e registro. Se for recorrer a fotografias, é essencial que elas mostrem a disposição das ruas, os tipos de moradia e os bairros que circundam a comunidade. Com base nisso, deve perguntar aos alunos quais elementos percebem após essa observação. As ruas são asfaltadas? Há espaço para a circulação de transporte público? De que materiais são feitas as moradias? E quais elementos estabelecem os limites físicos entre a favela e os bairros?

Foto: SambaPhoto/Juan Pratginestos/Getty Images
HETEROGENEIDADE Barracos em palafitas, comuns no Norte e Nordeste, constrastam com as favelas de morro. Foto: SambaPhoto/Juan Pratginestos/Getty Images

Para comparar diferentes paisagens, é útil usar também imagens do bairro vizinho e fazer as mesmas perguntas para que eles identifiquem semelhanças e diferenças. A descrição, feita durante um debate com a turma, depois que todos analisarem as fotografias, merece registro em um texto.

A turma precisa perceber se as casas são numeradas, se as ruas têm nome, se a favela é pequena ou grande, próxima ou distante do centro. "É fundamental abordar ainda o modo de vida das pessoas, pois a paisagem também é composta das relações sociais que nela se estabelecem", afirma Roberto Giansanti, geógrafo e autor de livros didáticos.

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CONTATOS
Francisco Scarlato

Roberto Giansanti

BIBLIOGRAFIA
Cidade de Deus, Paulo Lins, 404 páginas, Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 52 reais
Do Quilombo à Favela - A Produção do Espaço, Adrelino Campos, 208 págs., Ed. Bertrand Brasil, tel. (21) 2516-5401, 31 reais  

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 223, Junho 2009,

 

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