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Planejamento: momento de repensar a escola

A montagem de um projeto de ensino deve levar em conta vários aspectos, mas ter apenas uma finalidade: garantir que o aluno aprenda

por:
RC
Renata Costa
01 de Janeiro 2010 - 03:30


Fotos: Paulo Vitale/Marcos Rosa (dir.)


O ano letivo se inicia e, com ele, professores e gestores escolares se reúnem para fazer o planejamento anual. Essa atividade, embora seja sempre desafiadora, não deve ser vista como mera burocracia: é o melhor momento para que todos os atores envolvidos no processo educacional estejam juntos para repensar a escola e sua missão, a atuação dos professores e quais finalidades desejam atingir.


O planejamento não se restringe ao programa de conteúdo a ser ministrado em cada disciplina. Ele vai muito além. Está inserido dentro do plano global da escola, que inclui o papel social, as metas e seus objetivos. A escola, por sua vez, faz parte do sistema educacional e é ligada às secretarias de Educação nos diversos níveis, que também determinam expectativas de aprendizagem para as diferentes áreas de conhecimento.

Segundo o professor Celso Vasconcellos, doutor em Educação, diretor do Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica Libertad e autor de diversos livros sobre a questão, a elaboração do planejamento tem como elementos básicos a finalidade, a realidade e o plano de ação. "Acima de tudo, nessa hora o professor tem de assumir seu papel, pois o planejamento é uma organização de intencionalidades", afirma. 

 

O planejamento passo a passo

A finalidade diz respeito às intenções da escola, ao que o professor espera conseguir ao fim do ano letivo, tomando por base as orientações das secretarias de Educação. "É claro que há determinações das secretarias, porém o professor tem uma zona de autonomia relativa para realizar o que pretende na escola e na sociedade", diz Vasconcellos. A finalidade é também um ponto considerado crucial para Danilo Gandin, do Instituto Latino-Americano de Planejamento Participativo e autor do livro Planejamento na Sala de Aula. Ele chama essa etapa de "para quê" do plano do docente. "Os professores devem sair do nível do ?como e com o que fazer?, que é a preocupação específica com o conteúdo, e incluir ?o que fazer e para quê?", defende.

O segundo passo para o bom planejamento é levar em conta a realidade da qual fazem parte professores, escola e alunos. Em termos gerais, isso significa considerar aspectos sociais da comunidade, problemas e necessidades locais e, por fim, a diversidade dentro da sala de aula. A questão da diversidade vai além das questões culturais e de vivência. Inclui os diferentes graus de conhecimento entre os alunos sobre determinados conteúdos. Por esse motivo, o planejamento inicial já sofre modificações nas primeiras semanas de aula, de acordo com as características das turmas e seus níveis prévios de conhecimento. "Mesmo um professor com longa experiência no Magistério precisa de um planejamento anual, pois não se trata só de saber o conteúdo a ser transmitido. Há toda essa série de variáveis", pontua Gandin.

 

Características de um bom planejamento

  • Ter o foco na aprendizagem de todos, operacionalizando os conteúdos fundamentais para a escola.
  • Ser o produto de uma discussão que envolva toda a comunidade escolar.
  • Ter o desempenho constantemente monitorado, com abertura para redirecionamentos.
  • Conter princípios pedagógicos que correspondam ao contexto e à prática da sala de aula dos professores.
  • Prever tempo para a formação docente e para reuniões pedagógicas.

 

A participação do aluno é essencial entre o 6º e o 9º anos


Fotos: Paulo Vitale

 

Depois de traçar seus objetivos e considerar o percurso de aprendizagem que tiveram os alunos em anos anteriores, o educador desenvolve seu plano de ação que, conforme Vasconcellos, é o "fruto da tensão entre as duas outras etapas". Se a escola dispõe de computadores para que os professores utilizem com os estudantes, por exemplo, é hora de programar como será feito esse uso e com qual finalidade pedagógica.

Os professores do 6º ao 9º ano devem ainda, independentemente de sua disciplina, manter o foco na leitura, na escrita e na matemática. Segundo Stella Bortoni, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), isso é essencial porque índices de avaliação no Brasil mostram como é comum estudantes concluírem o Ensino Fundamental sem serem proficientes em leitura e escrita. "A leitura, a escrita e a matemática básica são instrumentais para o aluno avançar nos conhecimentos e ter melhor rendimento em todas as disciplinas", destaca. Por isso, para turmas do 6º ao 9º ano, algumas situações didáticas, como leitura e interpretação de textos também nas aulas de História e Geografia, são indispensáveis. E trazer a realidade para a escola é essencial para garantir nas aulas o interesse dos alunos. Gandin é categórico: "A vida real tem de estar contemplada no ambiente escolar". 

A eficência e a qualidade do projeto de ensino não podem ser confundidas com sua duração. O projeto necessariamente precisa ser ajustado durante o ano e vai ser tão melhor quanto maior for sua capacidade de ser redesenhado conforme as circunstâncias exigirem

Textos de jornais e revistas podem ser utilizados para atividades variadas em sala, bem como para a discussão de assuntos relacionados às disciplinas, como reportagens sobre economia, relações internacionais e ciência. Os adolescentes do 6º ao 9º ano devem ser convidados a participar não só das aulas práticas em laboratórios, mas a discutir também as teóricas por meio de pesquisas na internet e em livros, atividades em grupo e apresentações orais. Tudo isso possibilita, além da vivência do conteúdo, o desenvolvimento de habilidades como a expressão oral, a argumentação e o trabalho em equipe. Se os docentes tiveram a possibilidade de trocar experiências entre si na época do planejamento, melhor ainda. "O coordenador pedagógico tem papel fundamental para integrar os professores e garantir essa troca entre eles", orienta Stella.

Ao elaborar seu planejamento, o professor deve ter em mente que ele pode ser pouco ou muito modificado ao longo do ano letivo. Mesmo um planejamento bem alinhado, que considera os três aspectos (finalidade, realidade e plano de ação), sempre se altera. Isso fica claro ao pensar que os processos de ensino e aprendizagem são etapas distintas do processo educacional. Segundo Vasconcellos, a aprendizagem acontece "quando o docente cria condições de estudo para seu aluno, propondo situações e atividades que promovam uma aprendizagem contínua e estimulante".

Essa abordagem da diferença entre ensino e aprendizagem fica mais fácil de ser visualizada ao pensar que o conhecimento é construído em forma espiral. "Os saberes e conteúdos vão e voltam entre professor, aluno e sociedade. Vão e voltam dentro e fora da sala de aula e são retomados em diferentes níveis de complexidade", explica Vasconcellos. Pensando dessa maneira, os conteúdos não são fragmentados - separados e rigidamente divididos por aulas -, mas sempre revistos e interligados ao longo dos anos letivos. Na prática, isso significa também que alguns alunos terão mais facilidade em compreender determinados conteúdos e o docente terá de lidar com essa diferença entre eles. Vasconcellos sugere, nesses casos, que os estudantes com melhor conhecimento em determinados conteúdos sejam utilizados como monitores ou trabalhem em duplas com outros colegas. Em alguns casos, no entanto, será preciso planejar atividades com conteúdos diferenciados para os estudantes com menor conhecimento.

O que todos devem ter em mente é que, por melhor que seja o planejamento, ele precisa ser constantemente avaliado e estar aberto para revisões. Se não for assim, dificilmente, na opinião dos especialistas, você conseguirá atingir as metas determinadas no início do ano letivo. Todo retorno dado pelos alunos, por meio de avaliações formais, trabalhos, apresentações ou perguntas feitas em classe, deve servir para rever o planejamento e para que o docente reavalie quanto falta para alcançar o aprendizado que foi programado no início do ano. Stella Bortoni dá uma dica que pode facilitar o trabalho deste ano letivo que se inicia. "Mantenha uma agenda para anotar suas percepções ao longo das aulas, como quais habilidades precisam ser mais trabalhadas e quais atividades deram mais certo e tiveram melhor receptividade por parte dos estudantes. Além disso, considere essas observações na montagem do próximo planejamento e compartilhe-as com os outros professores", orienta.

 

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
A Prática do Planejamento Participativo
, Danilo Gandin, 182 págs., Ed. Vozes, tel. (11) 2081-7944, 30 reais
Avaliação e Planejamento, Madalena Freire, 88 págs., Ed. Espaço Pedagógico, tel. (11) 5505-1135, 12 reais
Ensinar - Tarefa para Profissionais, Delia Lerner, Neide Nogueira e Tereza Perez, 406 págs., Ed. Record, tel. (11) 3286-0802, 46 reais
Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico, Celso dos Santos Vasconcellos, 206 págs., Ed. Libertad, tel. (11) 5062-8515, 38 reais
O Projeto Educativo da Escola, Manuel Álvarez (org.), 180 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 33 reais

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