ANÚNCIO
Você sabia que é possível salvar matérias para ler mais tarde? Use o botão Ler mais tarde

Entenda a matriz energética brasileira

Quase metade da energia consumida aqui é renovável, ou seja, proveniente de recursos capazes de se refazer em um curto período de tempo

por:
IM
Isabel Malzoni
01 de Maio 2010 - 10:00

MENOS PETRÓLEO Somos autossuficientesna produção do recurso, mas o uso dederivados dele no país deve diminuir coma substituição parcial pelo etanol. Além demenos poluente, o produto derivado dacana -de-açúcar tem potencial de exportação. (Crédito: Bruno Veiga/ Ilustração: Rogério Fernandes)

 

Quase todos os dias, os jornais estampam notícias sobre a necessidade de mudar a matriz energética mundial, combater o uso indiscriminado de combustíveis fósseis e utilizar fontes de energia renováveis e menos poluentes. As mudanças climáticas, também causadas pela emissão dos gases poluentes oriundos da produção de energia, e a necessidade econômica e estratégica de depender menos do petróleo e de outros combustíveis fósseis são razões para isso. Não é à toa que entre essas notícias há tantas sobre o Brasil. Nesse assunto, o país possui trunfos importantes e muitos desafios.

A matriz energética brasileira, um conjunto de fontes de energia ofertados no país, é das mais limpas do planeta. Quase metade da energia (47%) consumida aqui é renovável, ou seja, proveniente de recursos capazes de se refazer em um curto prazo. O número ganha destaque quando comparado à matriz energética mundial, que, em 2007, era constituída de 82% de combustíveis fósseis - fontes não renováveis.

Para José Goldemberg, físico, ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo e um dos responsáveis pela criação do Proálcool na década de 1970, as vantagens não param por aí. "Ao utilizarmos fontes de energia produzidas aqui, não dependemos de importação nem ficamos suscetíveis a crises mundiais. Também estamos adiante na discussão ambiental, já que a hidroeletricidade e o etanol são renováveis e poluem pouco", diz (leia o artigo na última página). No entanto, ele alerta, a falta de investimentos em tecnologia e pesquisa está mudando o conjunto das fontes utilizadas e pode "sujar" a matriz energética gradativamente.

 

A complexidade da energia

As matrizes energéticas costumam ser tratadas, muitas vezes, de forma fragmentada no currículo do Ensino Fundamental. Veja abaixo os principais erros no ensino do conteúdo e como evitá-los.

Errado: Deixar o assunto de lado por achar que as especificidades dele dificultam o entendimento pela turma.
Certo: Ao estimular os alunos a pensar de onde vem a energia que alimenta lâmpadas ou faz o chuveiro esquentar, o professor estimula a busca de informações mais complexas.

Errado: Abordar o tema de forma superficial.
Certo: Matriz energética é um assunto que pede dedicação. É necessário pesquisar e estar seguro para tratar dele em sala.

Errado: Falar de energia sem vincular com outras questões ambientais.
Certo: O abuso de fontes de energia poluidoras ajudou a provocar o aquecimento global. É essencial discutir a questão.

Errado: Trabalhar o tema somente relacionando-o a ações do cotidiano.
Certo: Não basta pedir que a turma use menos a eletricidade. É preciso falar de energia em termos nacional e global.

Consultoria Rachel Trajber, coordenadora geral de Educação Ambiental do Ministério da Educação (MEC), e eduardo campos, do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo.

 

A FORÇA DAS ÁGUAS O Brasil possui oterceiro maior potencial hidrelétricotecnicamente aproveitável do mundo.Atualmente, 77,2% da energia elétricaofertada no país é gerada porhidroeletricidade, que, entre outrasqualidades, polui menos o ambiente. (Crédito: Luis Morais / Ilustração: Rogério Fernandes)

 

O Brasil tem o melhor programa de desenvolvimento de etanol

Entre as fontes de energia renováveis utilizadas no país, os biocombustíveis e, em especial, o etanol são "o" assunto. O Brasil possui o programa mais competitivo de desenvolvimento e produção desse combustível líquido não derivado do petróleo. O etanol também é aplaudido por ter preço baixo, emitir poucos gases poluentes e ser uma alternativa ao petróleo no setor de transportes. Hoje, ele representa 15% do total de combustíveis utilizados em motores à combustão, enquanto a gasolina totaliza 22,8% do consumo, e essa proporção deve chegar a 19,8% de álcool e 23,3% de gasolina até 2030, de acordo com a previsão realizada pelo Ministério de Minas e Energia. Além de menos poluente, o etanol tem potencial de exportação. Só em 2009, foram enviados para o exterior 3,15 bilhões de litros, dos 24 bilhões produzidos. E a demanda só tende a crescer. Para atendê-la, será necessário aumentar a produção com sustentabilidade. Teme-se que o aumento de áreas destinadas à cana afete a produção de alimentos (e o abastecimento) e ainda empurre a soja e a pecuária para a floresta Amazônica.

A segunda ameaça, baseada em estudo do ecólogo paulista David Lapola, da Universidade de Kassel, na Alemanha, foi publicada em fevereiro na revista PNAS. O governo já tomou medidas para minimizar esse impacto: apoiou a criação do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que estuda a produção do etanol de segunda geração, com a sacarose da cana e celulose. E encomendou à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) o zoneamento agroecológico da cana para limitar áreas dedicadas a ela.

Enquanto o etanol lidera os investimentos em pesquisa e tecnologia, outros bioenergéticos são desenvolvidos com menos afinco. É o caso da energia proveniente da biomassa e do biodiesel, produzido com óleo vegetal. Se vingar, o biodiesel deve diminuir o consumo de diesel, que responde por 45,6% do necessário pelo setor de transportes. Apesar de o Brasil já ser autossuficiente em petróleo e das recentes descobertas do pré-sal, até 2030 estima-se que os derivados do produto representem 36% da matriz energética - em 2005 ela era de 41% (veja o infográfico).

A participação do biodiesel na nossa matriz energética, por sua vez, é ainda muito pequena, 1,8%, embora o Ministério de Minas e Energia estime que esse número chegue a 5,8% em 2030. Estipulou-se por lei que ele seja misturado ao diesel em uma parcela de 5% do total. Mas o biodiesel ainda enfrenta problemas. Um deles, explica o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético, Altino Ventura Filho, é comercial. "Ele é mais caro do que o derivado de petróleo", diz. Isso porque, acrescenta o chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Celso Manzatto, falta realizar modificações genéticas na soja, a fonte do combustível, para possibilitar uma produção eficiente. "Enquanto o dendê tem produtividade de 5 mil quilos por hectare, a soja rende apenas 600 no mesmo espaço", diz Manzatto. Para Goldemberg, "o biodiesel deveria ser produzido com óleos vegetais que não competissem com a produção de alimentos, como o de babaçu. Mas essa iniciativa fracassou".

Na matriz de energia elétrica, a hidroeletricidade é o nosso principal trunfo. O Brasil possui o terceiro maior potencial hidrelétrico tecnicamente aproveitável do mundo. Atualmente, 77,2% da energia elétrica ofertada no país é gerada por ele. No mundo, esse número não passa de 19%. Entre as vantagens dessa fonte estão o melhor custo, a baixa emissão de poluentes e o fato de ser renovável. A participação das hidrelétricas na produção desse tipo de energia já girou em torno dos 90%, há 15 anos, mas tende a cair para 68,5% até 2030. A justificativa do governo seria a insuficiência do potencial. "O Brasil precisará aumentar a produção de energia térmica (carvão mineral e gás natural) e nuclear para atender ao aumento de demanda de eletricidade no futuro e também diversificar sua matriz", afirma Ventura Filho.

Embora atualmente só seja utilizado 30% do potencial de geração hídrica do Brasil, que é de 260 mil megawatts, outros 20% não foram analisados e, por isso, não há como serem utilizados a médio prazo. Na metade já inventariada, 70% localiza-se nas bacias dos rios Amazonas e Tocantins/Araguaia. Projetos de construção de grandes hidrelétricas na região geram críticas de especialistas porque áreas de floresta seriam inundadas.

O gás natural, o carvão mineral e o petróleo são combustíveis fósseis, não renováveis e poluentes. A energia nuclear é cara e libera lixo radioativo. Falta opção? "O governo ainda não investiu em potenciais, como a biomassa e a energia eólica", diz Goldemberg. A biomassa - material vegetal como resíduos agrícolas e florestas, que contêm energia química que pode ser liberada pela combustão para gerar eletricidade - é uma realidade."As usinas de álcool (principais produtores de energia de biomassa) vendem 2 milhões de quilowatts", afirma. Já a energia eólica, que tem potencial no Nordeste, só entrou na pauta em 2009.

 

Por uma matriz limpa

José Goldemberg 
Físico e ex-secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo (Crédito: Germano Luders)

O objetivo do momento referente à matriz energética brasileira é mantê-la limpa. Em outras palavras, temos de aumentar, ou ao menos deixar no mesmo nível, o alto índice de fontes de energia renovável que usamos em nosso cotidiano. Ao que tudo indica, no entanto, essa meta não vai se cumprir. Com o rápido crescimento da demanda por energia, proporcional ao aumento da população, o planejamento do governo tem mostrado que a saída adotada será apelar para o uso de fontes não renováveis, como o carvão e a energia nuclear.

A razão para isso é o investimento insuficiente no aumento de produção de fontes renováveis, como a hidroeletricidade e outras fontes alternativas de biocombustível. O que geramos de energia limpa a curto e a médio prazo não será suficiente.

As controvérsias em relação à hidrelétrica Belo Monte, projetada para ser construída no rio Xingu, são um exemplo das dificuldades encontradas atualmente. Para que ela saia do papel, será necessário inundar áreas de floresta em que vivem tribos indígenas e populações ribeirinhas. Sem falar nas espécies animais e vegetais que teriam seu ciclo de vida interrompidos. Assim como o projeto dessa usina, há outros, com potencial conjunto de 12 milhões de kilowatts, que enfrentam problemas de ordem socioambiental e podem não se concretizar. Os recursos hidrelétricos do país que nem sequer foram estudados e avaliados são ainda maiores. Os projetos aprovados e previstos para ser entregues até 2014 totalizam a produção de 15 milhões de kilowatts, energia insuficiente para atender ao crescimento econômico do país. E nosso consumo per capita de energia ainda está muito baixo quando comparado com os dos países europeus de clima semelhante, como Itália e Portugal.

A ampliação do uso de energia nuclear e de termelétricas a gás - parte da solução encaminhada pelo governo - vai na contramão da história pelo alto índice de poluição que geram.

A solução é abrir os olhos para o potencial que o país tem a oferecer, por exemplo, expandindo a produção de energia eólica no Nordeste e incentivando o uso de material orgânico em usinas de biomassa - uma realidade no estado de São Paulo e em países como a Dinamarca. E, claro, investir com força em pesquisa tecnológica.

Hoje o Brasil é uma referência na questão energética por causa do que já investiu no passado. Esse aporte, no entanto, tem de ser contínuo para que no futuro próximo não nos tornemos o país que deixou passar grandes oportunidades.

 

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Energia, Meio Ambiente e Desenvolvimento
, José Goldemberg e Oswaldo Lucon, 400 págs., Edusp,
tel. (11) 3091-2911, 66 reais

INTERNET
Notícias relacionadas à energia e publicações do Ministério de Minas e Energia que dizem respeito à matriz energética nacional. Há informações sobre as caracteríticas da matriz, quantidade de energia usada por setor e outras explicações sobre assuntos relacionados ao tema.

 

ANÚNCIO
LEIA MAIS
MANTENEDORA